Desafio Motomais 2021 – Um país, Uma estrada, Um depósito (N2 com Honda CB 125 F)

By on 1 Novembro, 2021

A Motomais propôs-se a fazer no seu Desafio 2021 uma viagem épica, baseada na endurance e na autonomia de uma máquina que tem sucesso um pouco por todo o globo, a Honda CB 125 F. Escolhemos a mítica Nacional 2 para percorremos Portugal de Norte a Sul, abastecendo apenas uma vez. Um País, Uma Estrada, Um depósito.

Por Pedro Alpiarça (Imagens: Bruno Baptista)

A subida interminável do preço dos combustíveis, e a eminente pressão para nos empurrarem para os veículos eléctricos, deu-nos o mote para um desafio.

 Escolhemos a pequena Honda CB 125 F (renovada para 2021, agora com instrumentação digital, novo design, iluminação LED e 11 kg mais leve), anunciando consumos na ordem dos 1,5L/100 e uma autonomia de 800 km, para tentar atravessar o país de Norte a Sul pela sua estrada mais icónica, a nacional 2. Seriam 738 km de asfalto repletos de curvas, subidas intermináveis e descidas retorcidas, enquadrada pelas paisagens maravilhosas que o nosso Portugal oferece.

A partida em Chaves revelou-nos uma boa surpresa…o depósito conseguia (com alguma paciência, é certo) levar pouco mais de 13 L, um bom augúrio para o intento.

A rolar, a ideia seria conseguir ter a luz do modo Eco acesa o máximo tempo possível, fenómeno apenas exequível com instantâneos abaixo dos 1,6. Muita cautela nas inclinações iniciais, uma atitude de desconfiança que se foi dissipando ao longo da viagem, não queríamos descer abaixo dos 50 km/h, afinal estamos a viajar numa moto, o medo não nos pode extinguir a audácia de nos divertirmos na sua condução.

A zona vinhateira brindava-nos com a sua luz de outono espalhada nas colinas ondulantes, a passagem pelo peso da Régua fazia-se num misto de euforia e espanto pelo comportamento certinho da pequena Honda quando embalada nas curvas. Cruzámos o Douro confiantes no sucesso da empreitada…

Atravessando Lamego e as escadarias da nossa senhora dos remédios, Castro Daire assinalava o fim do norte mais romântico, com um rendilhado de pormenores na sua paisagem. Era a parte do país mais industrial, Viseu, Tondela, exigiam-nos atenção redobrada para não baixarmos o ritmo (e até nos perdermos) nas suas malhas urbanas.

Por esta altura sabíamos que claramente tínhamos subestimado a dureza da primeira metade da N2 (A N2 celebrou recentemente os seus 75 anos, é a estrada mais longa de Portugal, atravessando-o de Chaves a Faro, ao longo de 738 km), o seu traçado revirado iria gorar a expectativa de chegarmos a Vila de Rei ainda de dia. Uma pena, porque ao passarmos a barragem da Aguieira entramos novamente na zona de serra, onde Penacova nos esperava para nos desejar boa sorte, noite dentro. Mais umas curvas feitas embaladas com heroísmo e as montanhas vencidas ainda com a capa posta, chegámos ao centro geodésico do país tarde de mais para vos podermos mostrar o quanto esta zona é brilhante para rolar em duas rodas.

No dia seguinte, encontramos uns felizardos aventureiros que após terem completado o Trans Europen Trail Português estavam a regressar à origem via asfalto. Não queriam acreditar que a CB 125 F fosse capaz de cumprir tal epopeia.

Começámos a rolar preocupados com o aumento dos consumos, a passagem nocturna pela serra da Lousã  e a vontade de chegar fez-nos atingir os  1,6L de média, e a autonomia teimava em não aparecer no computador. Visto que o indicador de nível de combustível se encontrava no máximo, o nosso receio era que assim que começasse a descer, fosse abrupto, e precisávamos do conforto dos números entregues pelo algoritmo da máquina.

De Vila de Rei a Abrantes as enormes descidas davam azo a técnicas pouco convencionais (mas eficazes) para baixar as médias, os 100 km/h eram ultrapassados com o modo ECO acesso! Artistas….

Pouco antes de cruzarmos o Tejo, finalmente um vislumbre de esperança, as teimosas barras de combustível deram sinal de vida e a indicação de autonomia apresentava mais de 500km. Até Faro seriam 300 e pouco. Vamos conseguir! Euforia instalada mas rapidamente nos apercebemos de que era cedo demais para celebrar. As rectas do Alentejo seriam exigentes para a manter a velocidade sem aumentar os consumos, e a glória final da Serra do caldeirão iria certamente dar azo a momentos épicos de pilotagem…que queríamos fazer de dia.

Baixamos a cabeça, literalmente, e abraçamos a cruzada com espírito de missão, até inventámos um cruise control altamente técnico para termos algum conforto de rolamento. Montargil saudou-nos com o seu espelho de água, e depois Mora e o Torrão anteciparam a parte mais dura do percurso. O Alentejo é sublime nos seus horizontes, impactante na sua magnitude e implacável na sua dimensão.

Reinventávamo-nos, procurávamos mais velocidade com estranhas eficiências aerodinâmicas…mas o tempo passava e Faro ficava cada vez mais perto. A tentação de apertar um pouco mais o acelerador era assombrada com a ideia de ficarmos parados no meio da serra. O Caldeirão onde a N2 se torna mágica. Nas suas incontáveis curvas, marcava a recta final de uma viagem épica, onde estava em jogo a honra de um pequeno monocilindrico de 125 cm3 (motor monocilíndrico de 124cc com tecnologia ESP+, debitando 11 cv @ 7500 rpm e 10,9 Nm @ 6000 rpm) e a sua enorme capacidade de endurance.

O pôr-do-Sol encandeava-nos quando tentávamos ser o mais fluidos possíveis neste carrossel algarvio, estávamos em êxtase motociclistico, antevendo as linhas seguintes travando o mínimo possível para não perder momento. Os números diziam-nos que iríamos conseguir, Faro estava a menos de 40km, era tempo de usufruir e de tentar encaixar na nossa mente o feito extraordinário conseguido. Um País, Uma Estrada, Um depósito. Faltava apenas chegar.

A azáfama da rotunda que assinala o fim da Nacional 2 não permite grandes celebrações, mas não foi por isso que deixámos de fazer uma volta de vitoria, felizes por termos conseguido.

A Honda CB 125 F tinha conseguido cumprir na integra uma exigente e lendária estrada, atravessando um país, apenas com um depósito de combustível. Fez cerca de 750 km com 12,5 L de gasolina, com uma média de 1,6 L aos 100, e chegou a Faro com capacidade de fazer mais uma centena (750 km percorridos com 12,5 litros de gasolina, consumo médio de 1,6 L/100km, velocidade média a rondar os 60 km/h)!

Nas cerca de 20h de condução, foi imperturbável no seu propósito, confortável no seu generoso assento, assertiva na sua travagem combinada e com um acerto de suspensões que não colocaram problemas de maior às exigências ciclísticas pedidas em situações de maior empenho. Brilhante. Absolutamente Brilhante. O Desafio Motomais 2021 estava cumprido com distinção. 

 

Estatísticas do Desafio:

Moto utilizadaHonda CB 125 F
Potência ; Binário ; Peso11 cv (8 kW); 10,9 Nm ; 117 Kg
Preço2,750 €
Distância percorrida750 Km (20 h de condução)
Consumosmédia de 1,6 L/100 km ; 12,5 L consumidos

 

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