Teste Harley Davidson Pan America 1250 – Uma Harley diferente!

By on 24 Agosto, 2021

A Harley Davidson ousou lançou uma trail de aventura. Nos tempos que correm, quebrar determinados esteriótipos é sempre um risco. O purismo dos seus seguidores aceitariam tal heresia? Conseguiria a marca de Milwaukee vincar o seu ADN num conceito tão longe da sua centenária realidade? Uma tal de Live Wire já tinha calado o mundo com o seu silêncio eléctrico, e agora era altura de atacar uma fatia de mercado que gosta das verdadeiras globetrotters, aquelas máquinas que são capazes de atravessar continentes. Fomos tentar descobrir se esta Pan America faz juz ao seu nome…

Por Pedro Alpiarça

Rumámos ao nosso Oeste com o espírito missionário não de desbravar novas terras, mas sim de explorar as capacidades de uma moto diferente. À primeira vista, muitos são os pormenores que identificam a marca, o enorme e glorioso V2 bem enquadrado pelo depósito alongado, os piscas redondos e volumosos, o descanso lateral avançado tipo patim, um assento largo e confortável. Existe uma presença mecânica assumida, não há plásticos supérfluos, é uma Harley Davidson e a robustez da sua imagem favorece-a. Há uma proporção nas formas, inclusive no estranho farol dianteiro horizontal.

Os primeiros kms foram feitos em Auto estrada, e a protecção aerodinâmica (defletor ajustável) revelou-se excelente. Estável sob qualquer condição, rapidamente percebemos que o motor Revolution Max (V2 com 1252 cc; 150 cv @ 8750 rpm ; 128 Nm @ 6,750 rpm; abertura de Válvulas Variável) é interminável na sua pujança, entre as 4k e as 8,5k rpm há uma soberba capacidade de resposta, de 6ª metida a Pan America mostra-se lesta e confiante. A ausência de vibrações, o conforto de rolamento, mas sobretudo a segurança que oferece num conjunto com uma elevada inércia, fazem dela uma Tourer de excelência, sobretudo com a capacidade de carga que este tipo de motos possibilita.

Quando a estrada começou a contornar montes e vales, foi altura de testar a ciclística mais a fundo. O desenvolvimento tecnológico da nossa era, faz com que o compendio de electrónica de uma moto de topo de gama não possa ser ignorado, mas cada vez mais procuramos simplicidade na sua interface e eficácia no seu desempenho. Mas sem precisarmos de perder horas a parametrizá-lo!

A Pan America mostrou-se exímia na simplicidade desta interação, com 4 modos de condução pré definidos (Rain, Road, Sport e Off Road Plus, este ultimo presente na versão Special) e 3 parametrizáveis (A,B e Custom Off-Road), conseguindo definir e bloquear os settings de resposta motriz, controlo de tracção, carácter da suspensão  e comportamento da travagem no fora de estrada (electrónica associada a um IMU de 6 eixos, sensível à inclinação). Mas já lá vamos à poeira. Agora era altura de perceber se o tanque conseguia ver a paisagem a 45º…

O Revolution Max no modo sport fica nervoso e intempestivo, não fossem os senhores de Bruxelas uns chatos, e toda a sua glória sonora elevava a experiência a outro nível. A Pan America é uma moto volumosa e essa inércia sente-se nas transferências de massa mais esforçadas. Mas o óptimo comportamento das Showa (Suspensão Showa semi-activa) não deixa os movimentos ficarem descontrolados, apresentam uma firmeza assumida que nos permite entender o quanto estão a trabalhar os pneus (Michelin Scorcher, criados de propósito para a Pan America, 120/70 R19 (fr) e 170/60 R17 (tr)), sempre privilegiando o equilíbrio do conjunto. A travagem (Duplo Disco de 320mm (fr) com pinças Brembo monobloco desenhadas especificamente para a Pan America; Disco 280mm (tr)) é mordaz, facilmente modulável e com potência a rodos, dando-nos o heroísmo necessário para lidar com o momento.

A descrição desta envolvência resume-se ao típico esmagar de acelerador, ficar surpreendido com a locomotiva a querer arrancar em direcção ao horizonte, focar o ponto de travagem com a sensação de que já estamos a exagerar…o passo seguinte envolve muita calma, porque depois de percebermos o quão estável é esta Harley nos travões, ficamos com tempo para escolher a linha, permitir que o conjunto se deite, e voltar à carga para repetir o processo.

É toda uma cerimónia, num misto de espanto e respeito pela dinâmica que a Pan America nos entrega. Boa Surpresa. A ausência de quick-shift nota-se sobretudo quando estamos neste registo, mas a caixa é precisa e a embraiagem assistida tem muito bom feeling.

Em toadas mais calmas, usufruímos do pisar confortável do modo Road e a onda de binário disponível dá-nos o conforto necessário para podermos rolar descontraidamente, a sua valência turística será certamente uma mais valia, sobretudo se fizermos uso do arsenal tecnológico ao dispor (comutadores específicos para multimédia, navegação associada ao telemóvel), tudo isto no bonito e informativo display com toutchscreen.

Com autonomias nos 300km (consumos de teste na ordem dos 7,1 L/100km) a Pan America gosta deste ritmo, sente-se à vontade na estrada aberta, sem horas contadas para chegar ao destino, mas a capacidade de explorar novos caminhos dá-lhe uma personalidade extra…

Testámos a versão Special, que tem como grande vantagem a utilização da suspensão Showa semi-activa e uma altura ao solo capaz de fazer uns truques engraçados. Cornering Lights, Sistema de monitorização dos pneus, Protecção de cárter em alumínio, Descanso central, Crash-Bars, amortecedor de direcção, etc… São 258 Kg (258 Kg em ordem de marcha) que não são fáceis de esconder. Mas a Pan America consegue a proeza de não nos intimidar, sobretudo graças ao equilíbrio do conjunto.

No meio do extâse mototurístico, por vezes encontramos caminhos alternativos, onde o asfalto termina, e depois do esforço extra aparece a recompensa visual. Este é o fora de estrada onde esta Harley se sentirá à vontade, nos estradões, nos solos mais rijos, no chamado fora de estrada do viajante. Porque o seu peso e o seu centro de gravidade nunca serão fáceis de debelar, é importante termos noções dos valores que estamos a movimentar.

E este elogio fica tanto maior quanto a atitude que a Pan America apresenta. A electrónica é eximia a encontrar tracção nas situações mais extremas e a suspensão não perde a compostura nos ressaltos mais agressivos, tudo muito equilibrado e previsível. como aliás foi apanágio da atitude desta moto em todas as situações.

Os pormenores pensados especificamente para o fora de estrada (Resguardos dos punhos destacáveis, Pedal de travão ajustável em altura, Jantes raiadas (disponíveis como extra)) demonstram a atenção dada, mas o grande truque da altura ao solo variável (Adaptive Ride Height – reduz a altura ao solo quando parado e ajusta em andamento a pré-carga de forma automática, disponível como extra) é o verdadeiro ovo de colombo, permitindo milagres aqueles que são mais limitados verticalmente. Não fosse o descanso tipo patim fazer-nos suar para o retirar da sua posição, e o mundo seria perfeito…

Não podemos deixar de dar uma nota muito especial à iluminação. O propósito do farol longitudinal que tanto caracteriza a sua imagem, é de criar um espalhamento extra, e de facto adorámos a sua capacidade de inundar a estrada com luz, um claro exemplo de função a servir a forma. É diferente de tudo o resto? Sim, claro. Mas funciona.

Faz-nos pensar, a título de conclusão, que esta nunca seria uma moto normal. Gerou controvérsia, mexeu com padrões que se imaginavam estanques e exclusivos a outras marcas. A Harley-Davidson conseguiu criar uma Touring capaz de fazer Aventura, mas sobretudo conseguiu dar-lhe a personalidade própria (HD Pan America Special a partir de 18,750 €). As suas concorrentes levam mais anos de experiência e são mais completas, mas acreditamos que a grande questão não se coloca em termos de escolha de mercado, mas sim em dar aos seus apaixonados clientes uma opção diferente mas muito bem desenhada dentro dos canônes da marca. É impressionante chegar ao fim do dia e poder dizer que esta Harley fez tudo bem, enquanto sacudimos o pó do casaco..

A Harley Davidson Pan America surpreendeu-nos. Pela capacidade de entrega do seu Revolution Max, pela boa parametrização das suspensões e dos seus truques, pela sua qualidade de construção inabalável e pela sua imponência estética. Robusta, Cheia de carácter, e com orgulho na sua genética, esta HD consegue ser uma Tourer de excelência, com apetências reais para um fora de estrada de viajante. Mas sempre coma noção de que o quick-shift é para meninos e que os Hells Angels podiam fazer uns tours Adventure para aterrorizar uns quantos boxers alemães…

Gostámos

  • Motor interminável
  • Travagem
  • Iluminação

A Melhorar

  • Ausência de Quick-Shift
  • Funcionamento do descanso lateral

 

 

Ficha Técnica:

Motor

Tipo de MotorBicilindrico em V
Cilindrada1252
Potência150 cv @ 8750 rpm
Binário128 Nm @ 6750 rpm
TransmissãoCaixa de 6 velocidades, final por corrente

Ciclística

QuadroHíbrido, motor autoportante com estrutura em treliça e estrutura em alumínio forjado
Suspensão Dianteira / TraseiraForquilha invertida de 47 mm com ajuste de compressão, rebound e pré-carga da mola. Triple clamps de forquilha em alumínio; Forquilha invertida de 47 mm com controle de amortecimento semi-active ajustável eletronicamente. Triple clamps de forquilha em alumínio (versão Special)
/ Monoshock piggyback com ajuste de compressão, rebound e pré-carga da mola hidráulica; Monoshock linkage-mounted com controlo eletrónico automático de pré-carga e amortecimento semi-active compression & rebound (versão Special)
Travagem Dianteira / TraseiraMonoblock, pinça de 4 pistões Brembo / Flutuante, pinça de pistão único
Pneus120/70 R19 ; 170/60 R17

Dimensões e Peso

Altura do assento890 mm
Distância entre eixos1580 mm
Capacidade do depósito21,2 L
Peso245 Kg ; 258 Kg (Special)
PreçoDesde: 16,400 € ; 18,750 € (versão Special)

 

Concorrentes:

  • BMW R 1250 GS Adventure

136 cv ; 268 Kg ; Desde 19,419 €
  • Ducati Multistrada V4

170 cv ; 215 Kg a seco ; Desde 19,935€
  • Kawasaki Versys 1000 S

120 cv ; 257 Kg ; Desde 15,895 €
  • Triumph Tiger 1200

141 cv ; 242 Kg a seco ; Desde 18,550 €

 

Galeria:

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