23º Portugal de Lés-a-Lés: De Chaves a Faro, na N2 – 1ª Parte

By on 6 Junho, 2021

O Portugal de Lés-a-Lés é uma aventura anual mototurística, que desde 1999 atravessa Portugal de extremo a extremo, contemplando paisagens e lugares de enorme esplendor paisagístico e histórico. Este ano, na sua 23ª edição, a grande maratona começou em Chaves, rumo a Faro. Ponto forte: o desafio de viajar de moto, em caravana, ao longo da mítica N2, essa estrada que é a 3.ª mais extensa do mundo, com 738,5 quilómetros entre Chaves e Faro. 

Fonte: FMP

Passeio em Chaves para aquecer montadas e físico

Dia do Passeio de Abertura e dia de colocar tudo ‘au point’. Verificações Técnicas e Documentais, pró-forma cumprido dentro das mais estritas regras de segurança sanitária. Mas nem as máscaras ou os abraços virtuais, beliscam a animação do reencontro antes do arranque rumo a um percurso pelas serranas aldeias do concelho de Chaves, entre soutos de centenários castanheiros e rotas onde os contrabandistas ganhavam o sustento da família. Nada menos de 96 km de deslumbramento, de prazer de condução e de uma alegria em cada aldeia como há muito não se sentia. Depois deste aperitivo, para soltar as montadas e físico, ainda ressentidas do confinamento, começa a verdadeira aventura.

Arranque condizente com a resiliência e majestosidade do Lés-a-Lés, bem vincada na concretização da edição 2020, marcada por inúmeras limitações e dificuldades, a passagem pela milenar Ponte de Trajano. Não é todos os dias que um veículo motorizado pode passar a ponte pedonal criada pelos romanos, tal como os muitos troços de calçada romana que por aqui vão resistindo ao passar dos séculos.

O presidente da FMP Manuel Marinheiro, Nuno Vaz Ribeiro e Rogério Bacalhau

Segue-se uma obra bem Portuguesa, a passagem pelo muito conhecido marco zero da N2, com mais uns milhares de fotografias para a posteridade daquele que é um dos pontos mais fotografados pelos mototuturistas portugueses e pelos muitos estrangeiros que aqui acorrem em número crescente. Só nesta edição do Lés-a-Lés, além de muitos e cada vez mais espanhóis, motociclistas que vieram desde França, Itália, Hungria, Suíça, Alemanha, Inglaterra ou Bélgica, para, logo de entrada, apreciarem a  vistas desafogadas sobre o vale do Tâmega até ao lado de lá da fronteira, a partir do Miradouro de São Lourenço. Momento de deslumbre ‘tocado’ pelo castelo que um americano está a construir à imagem das fortificações do Séc. XII para tornar num polo de atração turística. 

Mais modesta, mas bem ‘terrena’ e simpática, a sede do Clube Motard de Chaves, presidido por Filipe Carvalhal, recebeu a longa e heterogénea caravana, que vai desde as pequenas Sachs Fuego de 50 cc ou várias Honda 125 PCX até às maiores Honda Gold Wing de 1800 cc, passando por muitas BMW (a marca mais representada) num carrossel de cores e volumes diversificados.

Num dia de temperatura agradável para a ‘prática da modalidade’, com o sol tímido a garantir uma fresca agradável para andar de moto, deleite com pormenores de histórica beleza em aldeias como Faiões, Oucidres, Mairos ou, outras ainda, carregadas de estórias transfronteiriças, Vilarinho da Raia, Vilarelho, Cambedo e Soutelinho da Raia – locais onde bombardeamentos, contrabandistas ou povoações onde se fala uma espécie de dialeto luso-galaico foram alvo de toda a atenção

Regresso a Chaves, com passagem pelo Forte de S. Francisco e, num registo mais artístico, a possibilidade de visitar o Museu Nadir Afonso, o flaviense nascido em finais de 1920 e que faleceu poucos dias depois de completar 93 anos. Foi arquiteto e filósofo, mas foi a pintura que o tornou mais conhecido, estando agora toda a riquíssima obra bem exposta, beneficiando da riqueza luz natural em ambiente ímpar criado por Siza Vieira. Mas Chaves tem outros museus deveras interessantes e, por isso, houve quem aproveitasse para descobrir o Museu da Região Flaviense, com história que nem cem road-books conseguiriam descrever. 

Primeira etapa… rumo a Faro

Na primeira etapa do evento organizado pela Federação de Motociclismo de Portugal, a ligação entre Chaves e S. Pedro do Sul tocou nada menos que cinco locais onde brotam essas nascentes de águas medicinais. Em dia de carvalhais e bosques seculares, das estradas mais recortadas em redor da N2, de aldeias graníticas e vales encantados, a longa e heterogénea caravana passou por Vidago e Pedras Salgadas, logo à saída de Chaves, passando ainda em Carvalhal, já no distrito de Viseu, ainda antes da chegada às milenares águas curativas que atrai cerca de 16 mil aquistas por ano.

A ‘jogar em casa’ esteve o Secretário de Estado da Juventude e do Desporto que ao chegar a casa, ao seu distrito, «a um concelho vizinho de Viseu e que tão bem conheço», não deixou de manifestar grande satisfação por sentir o impacto imediato deste evento motociclístico em que, João Paulo Rebelo, enquanto membro do executivo, participa desde 2017. 

Um dia de termas e de serras – antes da passagem para as planícies alentejanas – que contou com 245 quilómetros repletos de motivos de interesse, que levaram os aventureiros a fazer-se à estrada bem cedo, com os primeiros participantes a arrancarem às 6 horas de Chaves. Partida madrugadora que conferiu outra mística aos primeiros bosques atravessados e sublinhou a imponência arquitetónica do Palace Hotel de Vidago, em tempos tido como o mais luxuoso de toda a Península Ibérica, ou do Hotel Avelames, em Pedras Salgadas, frequentado pelo Rei D. Carlos que se ali hospedava quando ia a banhos. 

Saída pela fresquinha que ajudou também a que as pequenas cinquentinhas do animado grupo de Santo Estevão que há muitos anos participam no Lés-a-Lés não aquecessem em demasia. E por lá foram, no seu inconfundível zumbido, galgando quilómetros rumo ao centro do País.

Com um pelotão cuja passagem leva cerca de seis horas, aqueles que partiram mais tarde escaparam à frescura matinal num dia marcado pelo verde de tom forte, pintalgado pelo amarelo-limão das flores das giestas (Cytisus striatus) mais conhecidas das maias, em contraste com a limpidez de um céu azul bem claro onde surgiam, aqui e ali, algumas nuvens que mais pareciam algodão bem fofo. Um dia fabuloso para andar de moto, com inúmeras saídas e regressos à N2, sempre por estradinhas não menos agradáveis e ainda mais surpreendentes.

Dia variado em termos de gastronomia, com destaque para o doce de castanha e a empada de cogumelos, em Vila Pouca de Aguiar, ou o famoso bolo podre de Castro Daire, onde todos os sentidos foram premiados. 

Vila Real foi a paragem seguinte, com um olhar sobre as emblemáticas bancadas do antigo circuito de velocidade, que tantas corridas de carros e motos acolheu, e as ruínas do castelo que serviu de berço à cidade, num promontório cujas escarpas deixam ver o encontro entre o rio Cabril e o Corgo. O maior prazer é encontrado nas estradinhas interiores, estreitas, mas muito recurvadas, praticamente sem trânsito, como aquelas que levaram a passar pela Nossa Senhora do Viso ou por Fontes, terra do Xassos Urban Cup, essas alucinantes corridas de motorizadas onde só os mais intrépidos vencem.

Menos intimista, a descida para a Régua, com paisagens de deslumbramento absoluto a cada curva, seguindo-se a subida até à monumental cidade de Lamego, palco ideal para arredondar os pneus. Seguius-e visita ao Centro de Interpretação da Máscara Ibérica, em Lazarim, onde estão expostos muitos exemplares de máscaras talhadas em madeira de amieiro, antes da passagem por Castro Daire rumo à Serra de Montemuro. Das aldeias mais altas de Portugal Continental, superando mesmo os 1120 metros do Sabugueiro (Gralheira está a 1130 metros de altitude) desceu a caravana, longa de 2250 motos e mais de 2500 motociclistas, até São Pedro do Sul, e daí até ao final da 1.ª etapa, plena de emoções, em viagem longa de 299 quilómetros até Abrantes, ponto terminal da 2.ª jornada do 23.º Portugal de Lés-a-Lés.

Continua…

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