Portugal pode ser um jogador estratégico
Com o crescimento do segmento de veículos elétricos, são precisas mais e melhores baterias: mais compactas, mais leves, mais segura e mais rápidas a recarregar.

É portanto preocupante a recente revelação de que uma das maiores fábricas da Índia, a Reliance Industries Limited, suspendeu o fabrico de células de baterias de iões de lítio na Índia, após o fracasso das negociações com a empresa chinesa Xiamen Hithium Energy Storage Technology. O impasse foi provocado por novos controlos de exportação da China sobre os componentes das baterias de lítio e as transferências de tecnologia para o estrangeiro, que exigem agora licenças governamentais.
O que aparenta ser um revés na obtenção de licenças, na verdade, expõe as profundas fragilidades que moldam a indústria das baterias atualmente — onde a tecnologia, a geopolítica e a competitividade de custos são indissociáveis, afirma a GlobalData, uma plataforma líder em inteligência e produtividade.
Crucialmente, isto não é um caso isolado. Uma dinâmica semelhante ocorreu nos EUA em 2024, quando o BlueOval Battery Park da Ford Motor Company, em Michigan, se viu envolvido em questões políticas e regulamentares. A Ford respondeu reformulando o projeto — reduzindo a capacidade, reestruturando a propriedade para manter o controlo total e até explorando uma mudança das aplicações em veículos elétricos para o armazenamento de energia à escala da rede.
Geografia diferente, o mesmo problema subjacente: a dependência na tecnologia de baterias chinesa acarreta agora riscos estratégicos e políticos.

Madhu Palit, Analista do Setor Automóvel, comenta: “Como resultado do domínio da China na refinação química de lítio e na produção de ânodos — e da sua consequente vantagem tecnológica — a construção de uma fábrica de baterias fora da China tem um custo estimado em cerca de um terço mais do que dentro do país. Esta diferença de custos explica porque é que as empresas globais procuraram parcerias com a China, apesar da conhecida exposição geopolítica.”
Com uma recalibração por parte dos governos e fabricantes de todo o mundo, as químicas alternativas, como as baterias de iões de sódio, estão a ganhar força devido à abundância de materiais e à menor concentração geopolítica. Paralelamente, as economias ocidentais estão a investir fortemente na investigação de estado sólido para contornar completamente a atual dependência do iões de lítio.
A aquisição da Faradion, sediada no Reino Unido, pela Reliance em 2024, para garantir a tecnologia de iões de sódio, enquadra-se perfeitamente neste padrão global — assegurando uma proteção a longo prazo em vez de um substituto a curto prazo.

Palit conclui: “O revés da Reliance faz mais do que destacar um acordo comercial mal sucedido — revela o quão essencial se tornou o controlo sobre a tecnologia avançada na corrida das baterias para veículos elétricos. A autossuficiência hoje depende tanto da estratégia geopolítica e do acesso ao conhecimento técnico como do investimento financeiro. A busca pela localização da produção, por composições químicas alternativas e por parcerias globais diversificadas não é apenas estratégica — é necessária. Isso também ressalta a urgência de construir resiliência no fornecimento, na tecnologia e nas alianças.”

Em Portugal, o fabrico de baterias está a crescer significativamente, com destaque para a megafábrica de baterias de lítio para veículos elétricos da chinesa CALB (China Aviation Lithium Battery) em Sines, um investimento de grande escala de cerca de dois mil milhões de euros que criou 1800 empregos diretos, impulsionado por apoios públicos e aproveitando a localização estratégica e a mão-de-obra qualificada do país para abastecer o mercado europeu.
Além disso, empresas como a portuguesa Addvolt (com base em Aveiro) e marcas históricas como a AUTOSIL mantêm a produção e inovação, enquanto especialistas como a Krautli (distribuidora Yuasa) e a investigação com nomes como a investigadora Helena Braga reforçam o ecossistema de baterias em Portugal.
















