Dados mostram que mais motos poupariam 28 milhões de dias de deslocações na Europa
Líderes do setor presentes na EICMA afirmam que os motociclos e as scooters podem trazer grandes benefícios às cidades europeias, reduzindo o congestionamento, diminuindo as emissões e poupando milhares de milhões.
A EICMA não se resumiu a novidades reluzentes e a lançamentos de novo modelos. Cada vez mais, é também o palco onde a indústria moto apresenta propostas para um futuro mais limpo e racional para a mobilidade em cidades congestionadas.

Este ano, pelo terceiro ano consecutivo, a ANCMA e a ACEM uniram-se para acolher a conferência “Dimensionar a Mobilidade Urbana”, reunindo decisores políticos, autoridades municipais e líderes do setor para examinar como os veículos da categoria L (desde scooters a motociclos) podem ajudar as cidades europeias a respirar um pouco melhor.
Com muitos dos principais Planos Europeus de Mobilidade Urbana Sustentável (SUMPs) programados para entrar em vigor em 2027, o painel começou com um alerta contundente: as regras da mobilidade urbana estão prestes a ser reescritas, afastando-se dos automóveis e aproximando-se da mobilidade centrada nas pessoas. Por outras palavras, as cidades querem ser acessíveis, funcionais e mais limpas, e as ferramentas de planeamento tradicionais já não chegam. Os líderes do setor aproveitaram o palco para destacar a rapidez com que os veículos da categoria L podem começar a gerar resultados.
O secretário-geral da ACEM, Antonio Perlot, partilhou as primeiras conclusões de um relatório da Oxford Economics (OE) sobre o valor económico das motos na Europa – o relatório completo está previsto para o início de 2026.
A principal conclusão é que os veículos motorizados de duas rodas (PTWs) já poupam aos passageiros na Europa cerca de 25,6 milhões de dias por ano em comparação com a utilização do automóvel, graças a deslocações mais rápidas e a menos tempo passado no trânsito.
Uma pequena alteração modal, com apenas mais 5% dos utilizadores de automóveis a optar por motos ou scooters, poderá recuperar mais 28 milhões de dias de deslocação, gerar uma poupança de 3,8 mil milhões de euros, reduzir as emissões no equivalente a 308 milhões de euros por ano e libertar espaço urbano do tamanho aproximado de Paris.
A mensagem transmitida pela conferência foi clara: as motos não são um nicho da moda. São um atalho subaproveitado para cidades mais limpas e ágeis. Mas isso só acontecerá se as autoridades reconhecerem os seus benefícios.
Durante anos, os defensores dos veículos de duas rodas têm pressionado os governos sobre os inúmeros benefícios de optar por uma moto em vez de um automóvel. Para os responsáveis, no entanto, parece que o que importa são apenas os resultados financeiros (a economia e/ou o lucro) que se podem obter com uma transição em grande escala.
Este parece ser o foco do relatório da OE: apresentar os argumentos de forma clara e simples, para que os legisladores os possam compreender. Em síntese, se o fizermos, todos poderíamos ganhar ou poupar.

Algumas cidades não estão à espera. Barcelona apresentou o seu novo Observatório de Motos, desenvolvido em parceria com a ANESDOR, (acima) uma associação espanhola de empresas do setor das duas rodas. Há muitas motos em Espanha, (cerca de 255.000 matriculas este ano até agora) muitos motociclistas e muitas marcas. Destas últimas, a ANESDOR representa 96% do mercado – concretamente, 67 empresas e 110 marcas.
O Observatório de Motociclos é uma plataforma dedicada à formulação de políticas relacionadas com a segurança, a convivência e a descarbonização. É um sinal de que, quando os sectores público e privado trabalham em conjunto, é possível progredir.
Milão, já um polo de utilização diária de motos, destacou como está a impulsionar a renovação da frota e a incentivar os modelos elétricos. O objetivo é acelerar a transição para um transporte urbano mais limpo, sem ignorar o que os cidadãos já utilizam.

O painel de encerramento reuniu representantes da BMW Motorrad, Yamaha Motor Europe, ANCI, Rede POLIS, TRT e ACEM. A conclusão foi unânime: para que os veículos da categoria L atinjam o seu potencial máximo, as cidades, os governos e a indústria precisam de trabalhar em conjunto, e não em sentidos opostos.
Os Planos de Mobilidade Urbana Sustentável (SUMPs) precisam de reconhecer o papel dos motociclos, não como uma reflexão tardia, mas como uma ferramenta que funciona hoje, não daqui a 10 anos.

Onde é que Portugal se encaixa nisto tudo? Apesar das atividades promovidas pelo GAM, com manifestações tendentes a chamar a atenção para a coesão entre os utentes da moto e o seu papel na mobilidade, ainda não há uma associação do comércio ligada às motos, com uma tentativa de formar uma há uns anos falhada, e a associação que representa as motos também representa os automóveis, num claro choque de interesses. Por outro lado, o nosso mercado é pequeno.
Se cidades como Barcelona e Milão conseguirem comprovar que os veículos motorizados de duas rodas reduzem realmente o congestionamento, libertam espaço e melhoram a qualidade do ar, torna-se mais difícil para o governo ignorar as provas.
Se o relatório da Oxford Economics, agora em finalização, mostrar conclusivamente que os veículos da categoria L apresentam resultados tangíveis na redução da congestão e poluição ambiente, há grandes probabilidades de o governo poder ser pressionado a implementar incentivos, alterações nas infraestruturas ou simplesmente reconhecendo os motociclos e scooters como uma ferramenta legítima e moderna para a mobilidade urbana. Isto poderia abrir caminho para um cenário de transporte mais favorável às motos para todos nós.
















