Há viagens que desafiam não só pelo destino, mas principalmente por todo o caminho que é necessário percorrer para nos conduzir até ao destino final. Ir de moto do Cabo da Roca, o ponto mais ocidental da Europa Continental, até ao Cabo Norte (Nordkapp), o extremo setentrional acessível por estrada, foi durante anos um sonho que agora se transformou em realidade!

por: Rogério Carrilho fotos: Rogério Carrilho
Aos comados da minha fiel Honda Africa Twin, vivi uma aventura a solo, feita de estradas intermináveis, fiordes majestosos, chuva persistente, contratempos mecânicos e momentos de beleza indescritível, que passo agora a contar na primeira pessoa! Foi uma longa jornada, onde o destino serviu apenas objectivo e de ponto de partida para algo que antevia de majestoso e único. Pese embora não tenham sido tudo “favas contadas” foram precisamente os desafios, a experiência de superação, descoberta, ligação intensa à estrada e o “respirar” uma enorme variedade de cenários inesquecíveis que marcaram este sonho, tornado realidade.

A viagem começa antes de partir
Uma viagem desta magnitude, não deixa muito espaço para improvisos. Foram meses de planeamento: revisão completa à moto, estudo de rotas, estimativa de custos de combustível, alimentação e alojamento. Até a aplicação de ferry (FerryPay) foi tratada com antecedência, para evitar atrasos em travessias que sabia que seriam várias.
O equipamento foi escolhido com cuidado: capacete integral, blusão e calças de proteção, botas e dois pares de luvas (um ventilado e outro impermeável). Roupa técnica em número reduzido (para calor e frio), apenas seis mudas, suficientes para todo o percurso e um blusão mais quente para usar fora da moto ou como camada térmica para o blusão de proteção. As malas laterais e sacos estanques garantiram que tudo se mantinha seco, mesmo nos dias de chuva intensa.
Levei ainda um kit de reparação rápida, compressor de ar, utensílios básicos como spray de corrente, além de suportes de telefone, tripé e câmara no capacete para documentar a viagem. Viajar sozinho significava levar apenas o indispensável, mas também estar preparado para qualquer imprevisto. Era eu e a moto, e cada decisão contava.

Primeiros quilómetros: rumo ao norte
A partida do Cabo da Roca foi simbólica. A moto carregada, a expectativa em alta, e as primeiras paragens em Salamanca e Logroño serviram de aquecimento. Atravessar França, Bélgica, Países Baixos e Alemanha pelas estradas nacionais e secundárias tornou a viagem mais lenta, mas também mais autêntica. Cada quilómetro trazia um ritmo próprio, longe da pressa das autoestradas.
Escandinávia: entrada noutra dimensão
A Dinamarca abriu as portas do Norte. A famosa ponte de Øresund marcou a entrada em Malmo na Suécia, e daí para a frente nomes como Jönköping e Uppsala ficaram para trás até chegar a Sundsvall, o ponto de viragem. A partir daí, o clima deixou de perdoar: chuva constante, vento e frio passaram a ser companhia diária. Houve dias em que precisei parar apenas para improvisar com sacos de plástico dentro das botas pois os pés chapinhavam em água. O conforto desapareceu, mas a determinação manteve-se.

O Círculo Polar Ártico
Cruzar o marco do Círculo Polar Ártico foi um momento inesquecível. Não é apenas uma linha no mapa é a entrada num mundo diferente, onde o sol da meia-noite se torna realidade e o clima muda em segundos. O frio aumentava, mas a sensação de estar cada vez mais perto do objetivo compensava tudo.
Nordkapp: no extremo da Europa
A chegada ao Nordkapp foi planeada ao detalhe. Fiquei instalado no Nordkapp Camping, a 24 km do ponto final, e decidi subir ao “plateau” às 2h30 da manhã. A escolha foi perfeita: não havia ninguém. Sozinho, com a moto e o silêncio absoluto, contemplei a esfera metálica contra o horizonte iluminado infelizmente não por sol pois estava mau tempo. Foi um instante de realização plena: tinha chegado ao topo da Europa, depois de milhares de quilómetros de chuva, frio e persistência.

As Lofoten: beleza escondida pela chuva
No regresso, rumei às ilhas Lofoten, famosas pela sua beleza quase surreal. Montanhas a pique sobre o mar, vilas piscatórias pintadas de vermelho e águas cristalinas. Mas a realidade foi dura: dos 340 km percorridos, cerca de 200 foram debaixo de chuva intensa e nevoeiro cerrado. Grande parte da paisagem ficou escondida, mas nas breves aberturas de céu percebi porque são consideradas um dos lugares mais bonitos do planeta.
Fiordes e ferries: postais vivos
Viajar pela Noruega é como viver dentro de um postal. A cada cinco minutos dava vontade de parar para fotografar. Fiordes profundos, cascatas em queda livre, estradas que serpenteavam por entre montanhas, um espetáculo a cada curva. As travessias de ferry foram mais que logística: eram pausas para descansar, beber um café e admirar a paisagem de outro ângulo.

Contratempos: quando a estrada põe à prova
A primeira grande dificuldade surgiu à entrada de Trondheim: um furo na roda dianteira dentro de um túnel, com apenas uma faixa por sentido. O trânsito parou por minha causa. Felizmente, com o compressor consegui encher o pneu o suficiente para sair. Um local indicou-me uma oficina, onde deixei a moto para montar uma nova câmara de ar no dia seguinte. Dias depois, a sair de Bergen rumo a Kristiansand, um acidente obrigou ao fecho de um túnel. A alternativa foi um desvio de 80 km por uma estrada estreita e destruída, em plena montanha, onde frio, chuva e gelo testaram os limites da resistência. Já em Kristiansand, a travessia de quase quatro horas de ferry até à Dinamarca foi uma dádiva: depois de 500 km sob tempo miserável, finalmente pude relaxar. Mas os problemas não acabaram. Na Dinamarca, a suspensão dianteira começou a perder óleo pelos retentores. O receio era claro: que o óleo contaminasse as pastilhas de travão e perdesse a eficácia de travagem. Para minimizar riscos, parava com frequência para limpar os excessos de óleo. Ainda assim, a partir do sul da Alemanha, não tive escolha: recorri às autoestradas para encurtar o tempo e chegar em segurança. Enfrentar tudo isto sozinho tornou cada obstáculo mais exigente, mas também mais marcante.
O regresso: fechar o círculo
Do norte da Noruega até Lisboa, atravessei Dinamarca, Alemanha, Países Baixos, Bélgica, França e Espanha. O corpo já acusava desgaste, mas a sensação de dever cumprido era maior. Chegar a Lisboa significou fechar um círculo perfeito: do Cabo da Roca ao Nordkapp e regresso, uma travessia que ficará para sempre na memória.

Reflexões de estrada
Viajar de moto é sentir o vento, o frio, o calor e a chuva diretamente na “pele”. É estar vulnerável, mas profundamente ligado à estrada e ao mundo. Fazer esta viagem a solo deu-lhe uma intensidade única. Nos momentos de solidão, encontrei força. Nos momentos de beleza, a contemplação foi mais profunda. Nos contratempos, testei a resiliência. O Nordkapp foi o objetivo, mas o verdadeiro prémio esteve em cada quilómetro percorrido, nas dificuldades ultrapassadas e nas paisagens inesperadas. A aventura não está apenas em chegar, mas em viver intensamente cada passo do caminho.
Números da Viagem
Duração total: 29 dias
Quilómetros percorridos: 12.700 km
Países atravessados: 10 (Portugal, Espanha, França, Bélgica, Países Baixos, Alemanha, Dinamarca, Suécia, Finlândia e Noruega)
Pontos extremos: Cabo da Roca (Portugal) e Nordkapp (Noruega)
Travessias de ferry: 6
Pontos marcantes: entrada no Círculo Polar Ártico, chegada ao Nordkapp às 2h30 da manhã, ilhas Lofoten, fiordes noruegueses, estrada de montanha entre Bergen e Kirstiansand
Problemas mecânicos: furo na roda dianteira (Trondheim) e fuga de óleo na suspensão dianteira (Dinamarca)
Meteorologia: chuva constante a partir de Sundsvall, frio e gelo em zonas de montanha, nevoeiro intenso nas LofotenM
Moto: Honda CRF 1000L Africa Twin
Estilo de viagem: A solo
Parceiros: Lone Rider; Wingmotor; Mitas / Multimoto; Scorpion; GRXplore e Grupo V.















