1ª Parte
Marca mítica italiana, tempos houve em que, em vez de associada a pacatas motos de turismo, a águia da Moto Guzzi voava nas mais arrojadas motos de competição…

Carlo Guzzi, nascido em Milão em 1889, perde o pai cedo e emprega-se como aprendiz numa oficina mecânica. Cedo descobre que tem dotes para a mecânica, acabando como projetista na Isotta Fraschini. Porém, com a chegada da Grande Guerra de 1914-1918, é obrigado a alistar-se e, empregue como mecânico de aviões, faz amizade com dois pilotos militares chamados Giovanni Ravelli e Giorgio Parodi.

Este último é filho do conhecido armador Genovês Emanuele Vittorio Parodi, e logo os três pensam em construir um motor de moto quando a guerra acabar… mas Ravelli morre num acidente aéreo, e isso deixa Guzzi e Parodi como sócios, com a fortuna de Parodi a ajudar na ideia de fabricar motos.
Em Março de 1921, mais precisamente no dia 15, foi constituída em Mandello del Lario, no Norte de Itália, a Società Anonima Moto Guzzi, com o objetivo de “fabricar e vender motocicletas e outras atividades ligadas à metalomecânica”.

Os sócios são três, Carlo Guzzi, o seu irmão Giuseppe, e Giorgio Parodi. A ideia de Guzzi, o sócio técnico, é simples: As motos da época são rudimentares, exigindo dotes mecânicos, paixão quase ao ponto da loucura e heroísmo para a sua utilização.
São difíceis de pegar, espalham óleo e, por pouco fiáveis, obrigam a levar junto uma vasta quantidade de peças e ferramentas para as contínuas reparações.
Guzzi não pactua com este estado de coisas e propõe-se construir uma moto melhor.

A partir dum protótipo de 1919 batizado de GP (Guzzi-Parodi) constrói uma monocilíndrica de 500cc com cabeça de 4 válvulas e distribuição por varetas.
A potência declarada é de 12 cavalos, para uma velocidade máxima possível de 100 Km/h. O modelo incorpora já numerosas soluções técnicas derivadas da indústria aeronáutica, bem conhecida dos dois. Apesar de ser avançada para a época, a GP ainda teve de ser sujeita a algumas modificações até se encontrar uma versão definitiva, até para ajudar a reduzir os custos de produção.
O nome GP, que poderia ter causado confusão com Giorgio Parodi, para não falar de Grande Prémio, é preterido por Moto Guzzi, adotando o emblema duma águia com as asas abertas, um emblema da Força Aérea, em memória do amigo falecido.
Assim, em 1921, surge a Moto Guzzi Normale, comercializada com 8,5 cavalos de potência e 80 Km/h de velocidade máxima, para um consumo de 3,5 lts aos 100 Km. A moto, com comando de válvulas à cabeça e diâmetro e curso de 82 x 88 mm incorpora várias novidades tecnológicas, e mordomias pouco habituais para a época.

Pela primeira vez, uma moto vem com descanso central, solução que será depois adotada por praticamente todos os outros fabricantes. Sem o recurso aos meios de propaganda de hoje, a melhor forma de publicitar o modelo era inscrevê-lo numa corrida e assim começa o envolvimento da marca na competição, que durará até aos anos setenta.
“Gino Finzi vence o prestigioso Targa Florio… iniciando uma série de sucessos impressionante, que durará até finais de 1957 sem interrupção. Entre o palmarés da marca adquirido nessa altura, figuram 14 títulos mundiais e 11 vitórias no Tourist Trophy.”
A prova escolhida é o Raid Nord-Sud, uma dura provação que unia Milão a Nápoles. Duas Moto Guzzi participarão, acabando modestamente na 20ª e 22ª posições. Só trinta dias depois, porém, Gino Finzi vence o prestigioso Targa Florio noutra, iniciando uma série de sucessos impressionante, que durará até finais de 1957 sem interrupção.

Entre o palmarés da marca adquirido nessa altura, figuram 14 títulos mundiais e 11 vitórias no Tourist Trophy. O sucesso em competição divulga o nome e começam a chegar as encomendas. Em 1921, constroem-se 17 unidades do modelo Normale, que eram vendidas por 8.500 liras.
A produção artesanal converte-se em industrial com a construção duma fábrica com 300 metros quadrados onde trabalham já 17 operários. Desde esse momento, o crescimento é constante. Em 1923, a marca já é bastante bem conhecida e admirada, e em Setembro de 1924 Guido Mantasti vence o Campeonato da Europa com a C4V, uma evolução do protótipo original.

O aumento constante das vendas obriga a expandir as instalações, com mais de 700 motos a sair da fábrica em 1924, quase o dobro do ano anterior. É a idade de ouro da Moto Guzzi…
Por alturas de 1925, com já 300 empregados, produzem-se mais de 1.200 motos, e em 1927 chega-se aos 10 veículos por dia.
Em 1928, a marca lança a primeira Grande Turismo da história, a Guzzi GT, dotada dum quadro flexível com suspensão posterior. O modelo acabou por tomar o nome de Norge, pois o irmão de Carlo Guzzi, Giuseppe, efetua nela uma viagem ao Círculo Polar Ártico. Ainda hoje, as turísticas topo de gama da marca têm esse nome.

Por alturas de 1934, a Moto Guzzi é a mais importante marca Italiana, e os seus operários trabalham com verdadeira dedicação artesanal, assinando individualmente os motores antes de os fecharem.
Os sucessos em competição e a inovação tecnológica são constantes. No Tourist Trophy de 1935, a Moto Guzzi obtém a primeira vitória duma marca não-inglesa em 24 anos, com Stanley Woods.
A sua moto emprega suspensão atrás e cedo este conceito inovador se expande a todas as outras motos de corrida. Os modelos da altura são monocilíndricos de 250 e bicilíndricos de 500, com o avançado motor em V de 120º, capaz de exceder os 200 km/h, a dominar os circuitos do mundial quase 20 anos.
Com o sucesso em competição, o vermelho Guzzi, usado nas corredoras, torna-se a cor de eleição também nas Guzzi de estrada e quase um ex-libris da marca nesses anos. Em pista, nomes famosos como Tenni, Ruffo, Lorenzetti, Lomas e Andersson, além do já mencionado Stan Woods, pilotam para a marca.
Cedo, porém, outros desafios se erguerão…
(continua)
















