Com tudo o que vai pelo mundo ultimamente, os nossos problemas, ‘nossos’ da comunidade motard, poderiam parecer quase insignificantes…
Não estamos em perigo de ser bombardeados nem atacados por uma potência estrangeira, nem expulsos das nossas casas em ruínas sob a força das armas, como infelizmente vem ocorrendo diariamente em vários sítios do planeta.
Perante este estado de coisas, buracos na estrada, maus condutores, formação deficiente ou o prospeto, agora longínquo, de inspeções técnicas indesejadas, são assuntos que parecem remeter-se à sua relativa insignificância.
No entanto, enquanto motards, temos um bem precioso, que foi desenvolvido ao longo de anos de sermos marginalizados e um bocado olhados de lado pelo resto da sociedade.
Com sorte, considerados apenas malucos inofensivos, mas em casos mais extremos, discriminados como os feios, porcos e maus, com o resultado de que, ao longo de anos, desenvolvemos uma consciência de classe ou grupo e aprendemos a utilizá-la para nos defendermos.
Esta manifesta-se no nosso poder associativo, em vir para a estrada às centenas quando atacam os nossos direitos fundamentais, mas também nas inúmeras associações locais, motoclubes, grupos motards que, ao contrário de uma qualquer associação de bairro que só vê nos confins do seu distrito, têm uma memória coletiva a nível global e uma capacidade de organização e mobilização que transcende a sua vizinhança imediata e por vezes, até fronteiras.
Da simples saudação motard ao colega anónimo que passa, ao ato de parar para prestar auxílio a outro à borda da estrada, atos individuais, às grandes realizações de âmbito social efetuadas por clubes de maiores dimensões, que regularmente contribuem para a sua comunidade, recolhendo brinquedos pelo Natal, angariando fundos para adquirir uma ambulância ou criando e replicando eventos que se tornam verdadeiros chamarizes nas suas respetivas terras, assumindo dimensões relevantes na economia local, podemos ser uma força a ter em conta.
É de pensar que essa capacidade organizativa, por vezes apenas utilizada para reunir à volta de 2 ou 30 cervejas numa qualquer concentração, mas por vezes igualmente demonstrada em atos de solidariedade, se poderia facilmente tornar um exemplo para a sociedade em geral, passando, por uma vez, uma imagem positiva de todos nós.
A primeira lição seria não julgar nenhum grupo, etnia ou nacionalidade por verdades mal entendidas, ou espalhar preconceitos na maioria das vezes infundados. A segunda seria que a união faz a força e com um pequeno esforço de muitos se podem conseguir grandes coisas. Isso sim, seria uma capacidade exportável para o resto da sociedade, ensinando-nos a todos a ser melhores, mais solidários e unidos, capazes de realizar grandes feitos de que nos podemos orgulhar. Se o único resultado disso fosse começarmos a ser um bocadinho mais respeitados, já seria um resultado digno… Boas curvas!


















