Primeira edição em França foi um sucesso estrondoso

De 11 a 13 de setembro, os participantes da primeira edição do 100 Colls France transformaram as estradas dos Alpes franceses no cenário de um grande desafio definido pela resistência, navegação e, acima de tudo, estratégia.
O 100 Colls não é um passeio de moto convencional: não existe uma rota predefinida. Durante 48 horas, cada participante elabora o seu próprio itinerário para validar passagens de montanha e somar pontos, gerindo o tempo, a distância e o descanso. Não se trata de ser o mais rápido, mas sim de tomar as melhores decisões.

Cada passagem de montanha tem um valor diferente, e cada escolha importa: focar-se numa concentração de pontos, procurar um dos extremos do mapa ou reformular o plano devido ao clima, ao trânsito, às obras na estrada ou à fadiga. A estratégia está em constante evolução. E os Alpes mostraram toda a sua força: passagens de montanha lendárias, estradas sinuosas, paisagens vastas e um clima em constante mudança. Um cenário tão espetacular como exigente, capaz de testar tanto os pilotos como as máquinas.

Classificação decidida pela estratégia
Até sábado à tarde, a qualificação ainda não indicava claramente quem acabaria por vencer. Os cinco primeiros classificados travavam uma verdadeira batalha estratégica, com as posições a mudar a cada nova passagem de montanha validada. Os futuros vencedores das diferentes categorias disputavam a liderança.

A dupla italiana “D-D Italy” (Davide Sirocchi e Damiano Cioppettini) e a dupla francesa “Tupardou” (Gilles Chapat e Loïc Flamant) mantiveram uma disputa renhida até domingo de manhã. Foi então que o plano da dupla catalã “Kove” (Marc Baurier e Ferran Sacristan) começou a dar frutos: tinham feito os cálculos, mantiveram-se fiéis à estratégia e ainda tinham fôlego extra para a reta final.

Passagem após passagem, com consistência e sem erros, foram-se distanciando gradualmente dos rivais até construírem uma vantagem inalcançável. Cruzaram a meta como vencedores gerais da primeira edição, não por terem pilotado mais rápido, mas por terem interpretado melhor o desafio. A bordo das suas Kove 800 GT, Baurier e Sacristan completaram as 48 horas com 46.002 pontos e tornaram-se os primeiros “Masters” na história do 100 Colls France. A sua vitória resume grande parte da essência do desafio: nos Alpes, o vencedor não é aquele que acelera mais, mas sim aquele que consegue manter o ritmo, o foco e a estratégia certos até ao fim.

Na classificação por equipas, a Macbor também travou uma disputa intensa pela liderança, mantendo um ritmo sólido e consistente que a colocou no topo da tabela em vários momentos. Entretanto, a Yamaha Y-AMT aproximava-se perigosamente, até que uma série de contratempos inesperados a tiraram da disputa pelo troféu de equipas. A velocidade trouxe também uma das realidades mais duras do fim de semana. Dois participantes foram excluídos da classificação por infrações de excesso de velocidade — um lembrete inequívoco de que o 100 Colls recompensa a estratégia e a consistência, nunca a imprudência.

Resistência humana e mecânica
A estrada também cobrou o seu preço. Alguns pilotos viram os seus pneus desgastarem-se mais rapidamente do que o esperado e, com isso, parte das suas hipóteses desvanecer-se, obrigando-os a repensar a estratégia. O exemplo mais claro foi o do piloto francês Bernard Husson, que ainda estava entre os líderes na tarde de sábado e tinha reais hipóteses de vitória individual. Tinha ritmo, mas os seus pneus acabaram por ceder e foi obrigado a reduzir a velocidade. A sua decisão de priorizar a segurança e garantir a chegada ao final custou-lhe posições, mas também lhe permitiu completar o desafio. Nos Alpes, tomar uma decisão tão difícil também faz parte do jogo.

A melhor notícia do fim de semana, no entanto, não surge em nenhuma classificação: não houve acidentes a registar. Com centenas de participantes a percorrer milhares de quilómetros nas estradas alpinas, esta é, sem dúvida, uma das grandes vitórias da primeira edição do 100 Colls France.

Os nomes que marcaram a primeira edição
No formato individual, a vitória foi para o piloto francês Eric Nicod, que teve uma prestação brilhante a bordo de uma Ducati DesertX, mantendo a consistência do início ao fim e evitando contratempos. Na categoria por equipas, como a evolução da classificação já indicava, a equipa Macbor conquistou a vitória a bordo das suas incansáveis e velozes Macbor Montana XR 510. Além de vencer na categoria por equipas, arrecadaram o troféu pelo maior número de passagens de montanha validadas, com uma marca impressionante: 76 passagens em 48 horas.

Houve também quem vencesse à sua maneira. O piloto catalão Toni Puntí partiu sozinho de Barcelona numa antiga BMW R80G/S Paris Dakar, tendo apenas uma tenda de campismo como alojamento, e acabou por conquistar o Troféu de Clássicas. A mulher melhor colocada foi a campeã mundial de enduro Ludivine Puy, da Kove France, (acima) que mais uma vez demonstrou a sua experiência e serenidade num desafio tão exigente. Logo atrás dela, em segundo lugar, ficaram Emmanuelle e Philippe Plantegenest, que tinham começado sem grandes pretensões — com apenas um ano e meio de carta para ele, dois anos e meio para ela, e um par de V-Stroms preparadas em casa. Eles vieram, disseram, simplesmente para desfrutar do passeio; em vez disso, ficaram totalmente fascinados pelo desafio e celebraram um segundo lugar na categoria feminina que dificilmente esquecerão.

O troféu Garmin Xtrems foi para a Bélgica, graças a Gill Vangorp. O belga estabeleceu para si próprio o objetivo de alcançar os três pontos extremos do mapa — uma escolha que significava sacrificar áreas inteiras repletas de passagens de montanha mais fáceis em troca de quilómetros que não rendiam pontos, apenas a satisfação de ter chegado lá. Conseguiu e ainda validou 61 passagens de montanha, conquistando a categoria Master Gold.
O prémio para o passageiro mais bem colocado foi para Hyunjoo Lee, que passou todas as 48 horas à pendura duma Ducati Multistrada V4 RS e venceu também a categoria Master Bronze. Ser passageiro no 100 Colls está longe de ser fácil: exige uma enorme resistência física, uma confiança absoluta e uma grande capacidade de sacrifício.

E há também as histórias que não podem ser medidas em números. Laurent Costa, um motociclista lusodescendente da região de Paris, inscreveu-se na primeira edição do 100 Colls France meio às escondidas da sua mulher — queria simplesmente testar-se a si próprio. Quando o seu GPS falhou no meio do nada, rodeado de altas montanhas e sem pontos de referência, pegou num mapa Michelin, abriu um caderno e desenhou o seu próprio roadbook à mão, tal como os pilotos faziam antes da existência dos ecrãs. Exausto, mas com a mente lúcida, foi encontrando o caminho até ao ponto onde deveria pernoitar. Este espírito valeu-lhe o troféu 100 Colls Spirit 2026 — e, ao recebê-lo, as lágrimas nos seus olhos contaram o resto da história.

E uma última menção, talvez a mais admirável de todas: Ismael Fernández, que percorreu mais de 1.200 quilómetros pelas passagens dos Alpes a bordo de uma Vespa. Sem contar com o desempenho de uma aventura moderna, mas com determinação de sobra, conquistou o título “Master Bronze” e, nesse processo, deixou algo claro: a moto importa, mas a pessoa que a conduz importa ainda mais.

Muito mais do que uma classificação
Após dois dias intensos e uma manhã final em que tudo estava ainda em aberto, os participantes chegaram gradualmente a Ô Lac, em Châteauneuf-sur-Isère. À espera deles, estiveram o pórtico de chegada, um aperitivo, o almoço de encerramento e uma cerimónia de entrega de prémios que celebrou não apenas os resultados, mas também as histórias vividas ao longo daquelas 48 horas. Porque o 100 Colls não se resume a ganhar. Trata-se de construir o seu próprio desafio, tomar decisões, adaptar-se ao que quer que surja pelo caminho e descobrir até onde é capaz de ir. Trata-se também de saber quando forçar o ritmo, quando deixar algo de lado e quando abrandar para continuar a avançar.

Esta primeira edição francesa deixou uma certeza: o 100 Colls precisa de ser vivenciado. Semanas de preparação, tanto estratégica como física, para 48 horas de uma intensidade difícil de explicar a quem não a vivenciou. Disputas que duraram até às últimas horas, decisões que mudaram tudo e histórias pessoais que, cada uma à sua maneira, captam a essência do desafio. Organizado pela Crom Event Management, o primeiro 100 Colls France transformou os Alpes franceses num novo território do 100 Colls. Os Alpes têm agora os seus primeiros “Masters”, e esta edição inaugural abriu as portas a um novo capítulo.














