A interação motociclista-automobilista, uma relação difícil

By on 25 Junho, 2021

Os encontros entre veículos de duas e quatro rodas, são frequentemente caracterizados por desconfiança, incompreensão e falta de conhecimento do ponto de vista um do outro. Há ainda aspectos puramente técnicos dos dois lados, menor visibilidade por parte do automobilista e uma disparidade de performances incomparável, duas questões relacionadas com o tipo de construção dos veículos. Então, que fazer para uma sã convivência? 

Afinal, somos todos humanos, e muitos até utilizamos ambos os meios de locomoção, pelo que se fizermos um esforço, seremos capazes de perceber e pôr em prática formas de melhorar interagir . Comecemos pelo fim, pelas consequências, tantas vezes catastróficas e dramáticas desta relação difícil desde o tempo da criação da roda.

ACIDENTES 

Indo direto ao ponto crítico, quem é o culpado com mais frequência em acidentes, e por quê?

Um estudo realizado na Alemanha é bastante concreto quanto a isto. Estatisticamente, isso está bem claro: na maioria das vezes, a culpa é do utilizador do carro. Quando uma moto colide com outro utente da estrada, o condutor do carro é o principal culpado em 80% dos casos. E mais, se olharmos para as colisões entre condutores de automóveis e motociclistas com ferimentos, em dois terços dos casos, o condutor do automóvel é o responsável por causar o acidente. 

Ainda de acordo com este estudo, as razões para estes resultados são complexas. É frequente os veículos de duas rodas não serem apercebidos por outros utentes da estrada. 

A moto é simplesmente ‘esquecida’ pelo automobilista devido à sua silhueta esguia,  desaparecendo do campo de visão por um curto período devido ao pilar A do automóvel. 

Esse curto instante de ‘invisibilidade’ é o suficiente para provocar um acidente. Mas claro, isto não serve de desculpa nem para o automobilista pouco atento, nem para o incauto e destemido motociclista. Uma das formas de minorar o problema é dar uma distância mínima de segurança ao automobilista que vai à nossa frente, em vez de seguir na sua sombra: isso pode ser a diferença entre ter ou não ter mais uns anos de vida. Nós fazemo-lo, e recomendamos vivamente a sua prática!

PRAZER OU UTILIDADE 

Este aspeto, pode também ser observado do ponto de vista da psicologia. Jens Dralle, diz o seguinte: “Olhando mais de perto para ambos os utentes, descubro uma diferença fundamental. Acredito firmemente, que muito poucos motociclistas conduzem os seus veículos de duas rodas porque são obrigados. E isto é muito diferente do lado dos condutores de automóveis. Para muitas pessoas, o carro é simplesmente um meio de deslocação. Como resultado, os condutores distraem-se mais facilmente, por exemplo, com o uso de smartphones. Na pior das hipóteses, isso pode causar acidentes. Depois, há a incerteza. 

Os condutores acham cada vez mais difícil estimar as dimensões dos seus veículos e a velocidade dos outros utentes da estrada. Percebo isso na autoestrada, por exemplo, onde muitas pessoas se sentem inseguras. Há menos sensações com o tráfego a fluir.”

Dralle tem alguma razão, até porque na verdade, as dimensões dos automóveis são cada vez maiores, ao contrário das motos com alta cilindrada, que tendencialmente caminham para dimensões cada mais reduzidas – a excepção são as motos Adventure, mais altas e estruturalmente maiores – um contraste real entre as duas indústrias (de duas e quatro rodas) que pouco contribui para uma sã convivência na estrada.  

PONTOS CRÍTICOS

Uma das zonas críticas e potencialmente causadora de acidentes com motociclistas é a saída de curva, e se houver tráfego próximo, isso pode ser duplamente complicado. Nestes casos, o problema não é uma velocidade muito elevada, mas sim a falta de capacidade de condução do respectivo condutor.

Conduz-se uma moto com todo o corpo, usando impulsos de direção e orientação a partir do olhar. Por outras palavras, precisamos de ver para onde queremos nos dirigir. Apesar de conduzida principalmente pelo corpo e seus impulsos, a moto vai sempre para onde manda o campo de visão do condutor, e nesse sentido o maior perigo para o motociclista é quando fixa a sua atenção na berma da estrada, em vez de centrar o olhar no ponto de saída de curva. 

Nas curvas, deve-se sempre usar a linha de segurança dinâmica sempre que possível. Aproximando-nos da curva para a esquerda no lado direito da estrada, podemos olhar para longe na curva. Logo, podemos ver a saída da curva e qualquer tráfego que se aproxima mais cedo e também somos vistos mais cedo. 

Por seu turno, curvas à direita precisam ser abordadas junto à linha separadora e depois mudar para o nosso lado até a saída da curva à direita. Desta forma, evita-se o risco de ser ‘transportado’ para a faixa oposta. Muito poucos motociclistas caem numa curva porque vão muito rápidos, mas sim porque a sua orientação visual é pobre, e não ousam adoptar um ângulo mais inclinado. Para quem está de fora, um motociclista que percorre uma curva com uma inclinação de 35 graus, parecerá espetacular. Isso não é ousado, mas nem todos têm essa experiência prática para o fazer!

Ao mesmo tempo, os motociclistas precisam ter a noção que o campo de visão do automobilista também é restringido pelo pilar A do automóvel nas curvas… um ângulo cego portanto. Para evitar acidentes, ambos os condutores, do automóvel e da moto, devem então manter entre si uma distância de segurança grande, em vez de muito pequena nas curvas. ‘Cortar a curva’ é sempre pouco recomendável…entrar na mesma dentro dos limites legais de velocidade…é sempre seguro.

EXCESSO DE VELOCIDADE É UM PROBLEMA REAL?

A velocidade excessiva é um problema que afeta condutores de carros e motos. É algo que tende a diminuir ligeiramente, mas há uma óbvia incapacidade de estimar a velocidade e o trânsito. O desleixo, a desconcentração, são outros inimigo da interação entre condutores de automóveis e motociclistas. A mudança despreocupada de faixa numa autoestrada, muitas vezes sem pisca e motivo aparente – da direita para a esquerda – o uso do telemóvel ou de outros aplicativos que distraem o condutor do carro, coloca em perigo outros utentes da estrada.

Já para os motociclistas, o tema velocidade certamente está mais presente. Os motociclistas geralmente estão na estrada porque querem e tendem a ser mais ambiciosos. Por outras palavras, existe uma discrepância em termos de motivação para conduzir. Um pouco mais de serenidade e tolerância para com os outros, reduziria o “problema”. 

Por outro lado, por construção as motos geralmente aceleram muito melhor do que os carros, têm uma relação peso-potência mais aproximada, o que pode permitir ao motociclista afastar-se mais rapidamente de uma situação potencialmente perigosa, ou por distração, acabar por entrar mais depressa nela. É uma moeda de duas faces, portanto. O melhor é manter o controle da situação por conta própria, travando e mantendo distância. 

Travar sem exagero – para não entrar numa derrapagem descontrolada -, manter um pouco mais de distância para o veículo da frente, e estar sempre atento ao que se passa à sua frente – em cruzamentos, lombas e curvas de difícil visibilidade – melhora a nossa interação com os outros e reduz a possibilidade de acidentes. Supondo que, ainda assim, nem estes conselhos o inibem de ‘dar corda ao acelerador’ em qualquer lugar, damos-lhe um exemplo que talvez o deixe a pensar sobre a questão da velocidade: um acidente a 200 quilómetros por hora é como atirar-se da Torre Vasco da Gama, em Lisboa. 

BOA CONDUTA E EDUCAÇÃO

Há ainda a questão da boa conduta e educação: o desrespeito pelas regras de circulação verifica-se tanto nas quatro como nas duas rodas. Seria bom que alguns refletissem na impressão negativa que deixam nos outros com o seu comportamento, e que acaba por denegrir a própria imagem dos motociclistas; assim como alguns aceleras das 4 rodas – ambos os lados fariam bem em desacelerar o próprio ego de vez em quando, e ter consideração uns pelo outros.

A má educação mata, e traz consequências nefastas em múltiplos aspectos. Segundo a Associação Portuguesa de Seguradoras, Portugal gasta, por ano, 5% do seu Produto Interno Bruto (PIB) na recuperação de acidentados. Sabe que os acidentes de viação são a causa de morte primária em Portugal até aos 35 anos? Sabe que por cada pessoa que morre, 160 são feridas e duas mil passam nas urgências hospitalares? Pense nisto.

TARDE DEMAIS…

Por que ainda acontece que motociclistas e automobilistas não reconhecem a ação do outro, ou a reconhecem tarde demais? É aqui que a travagem entra em jogo. Ainda que um motociclista detecte as luzes de travagem de um carro, ele pode não reconhecer a rapidez com que o carro está realmente a perder velocidade. O potencial para reduzir a velocidade é muito maior num carro que numa moto. Os carros travam muito melhor do que as motos, parando em média a 100 km/h cerca de cinco metros antes, ou seja, a 35 em vez de 40 metros.

A velocidade de impacto é, portanto, de pelo menos 30 km/h. Com uma moto ainda sem ABS, 50 metros de distância de travagem são normalmente necessários, pelo que irá bater na traseira do automóvel a cerca de 50 km/h. Se somarmos o tempo de reação, não há hipótese de termos a distância suficiente… e aqui, uma vez  mais, destacamos a teoria de se dar uma distância maior ao veículo da frente.   Não devemos esquecer que uma boa parte das motos em circulação não possui ABS.

Portanto, o que aconselhamos é não seguir ao meio atrás de um carro, mas ligeiramente à esquerda, dando ainda a possibilidade do condutor do carro observar a sua aproximação pelo espelho esquerdo. Esse seu posicionamento, também vai melhorar o seu campo de visão – especialmente com SUVs e carrinhas à sua frente – aumentando ainda a sua possibilidade de escapar ao acidente numa possivel travagem de emergência do veículo que o precede. 

MUITOS ACIDENTES SÃO EVITÁVEIS?

Sim, se os dois utentes da estrada, do carro e da moto, forem condutores previdentes e conscientes. Como motociclista, por exemplo, não devo nem preciso de conduzir muito próximo de um carro numa via rápida (circular ou autoestrada) com três ou quatro faixas de rodagem no mesmo sentido. Uma mudança repentina de faixa do veículo da frente devido a uma colisão à sua frente, poderá deixar-me em apuros, sendo pois melhor dar a distância de segurança que acima referimos. 

Muitos automobilistas também subestimam a velocidade das motos ao virar à esquerda. Se um motociclista se aproxima de um cruzamento a 100 em vez dos 70 km/h permitidos, ele percorre 100 metros em três segundos em vez de cinco. Isso não pode ser avaliado por um automobilista que segue a marcha lenta, e portanto, o perigo de colisão aumenta! 

A posição do sol também afeta a visibilidade. Quando eu tenho uma longa sombra na minha frente então tenho o sol atrás de mim. O meu tráfego próximo vê-me muito pior. Como motociclista, tenho que me adaptar a isso. Quando os carros estão em trânsito cruzado, ou mesmo querem virar à esquerda no trânsito, em sentido contrário e diretamente em frente da moto, devemos estar prontos para travar e em nenhuma circunstância ultrapassar o limite de velocidade. 

Chuva intensa, pavimentos molhados ou sujos, nevoeiro, dias de muito vento – lateral destabiliza a moto, vindos de trás aumentam-nos a velocidade inesperadamente… – são causas naturais que nos devem obrigar a seguir uma condução defensiva, já para não falar em pavimentos esburacados – frequentes nas zonas urbanas e estradas rurais – estradas com deficiente sinalização, curvas cegas, etc. Nestas situações, nada melhor que reduzir a velocidade, estar sempre pronto a travar e ter todos os sistemas de assistência na moto accionados… Prevenir é o melhor remédio!

SISTEMAS DE ASSISTÊNCIA À CONDUÇÃO

O sistema de assistência mais importante é o humano e só depois vêm as ajudas técnicas. O carro em si oferece ótimas condições através da moderna tecnologia de chassis até a direção para poder reagir em caso de emergência. ABS e ESP são, na verdade, de série na maior parte dos automóveis atuais. O controle automático de distância e o assistente de ângulo morto com bips, luzes e o triângulo de advertência no retrovisor externo certamente o ajudarão. No entanto, os sistemas não funcionam em todas as condições meteorológicas. 

A câmera atrás do para-brisa pode falhar com chuva forte ou neve. O sistema de assistência mais importante para nós (motociclistas) são, portanto, os faróis. No sector das motos, todos os sistemas de auxílio são bem-vindos, mas é um auxílio. O ideal, porém, é que conduza como se não tivesse nenhum. ABS e controle antiderrapante são sistemas de emergência que previnem o pior em caso de operação incorreta ou quando assustado. 

Assim que o motociclista sente um sistema de assistência ativo, significa que já cometeu o erro e está a deslocar-se para além dos limites físicos. Uma moto recente tem controle de tração na parte traseira, mas não na dianteira. Se estiver escorregadio o pavimento, posso escorregar sem travar, mesmo num ângulo de inclinação ligeiro. Os sistemas auxiliares não fazem tudo, o lado humano é sempre o mais importante.

EQUIPAMENTO

O que mais nos pode aumentar a segurança, enquanto motociclistas? As motos modernas com luzes diurnas devem acender a luz “correta” para não encadear os outros, esse é um pormenor que deve estar sempre atento, e basta um olhar para o painel de instrumentos para se aperceber se tem os máximos ou mínimos ligados. Não custa nada!

O equipamento é outro dado a ter em conta. Muitos fornecedores propõem cores neon nos blusões, roupas luminosas e um capacete vermelho ou branco aumentam a visibilidade. Um colete de segurança não é a última palavra em sabedoria, deve tê-lo sempre consigo para o usar em caso de avaria ou acidente. Ter sempre guardado na moto um equipamento de chuva também é importante, porque, como sabe, pode chover em qualquer altura do ano.  

Tenha os pneus e elementos de travagem em boas condições, que são componentes que o podem livrar de um acidente! 

O SÉTIMO SENTIDO

O inimigo é susto, porque paralisa. Para se manterem aptos a agir, os condutores devem estar atentos e treinados para serem capazes de reagir adequadamente ao maior número de situações inesperadas. Não importa se vai de carro ou de moto, você deve estar sempre preparado para as irregularidades dos outros. O sétimo sentido não é bruxaria, mas surge muitas vezes. Todos devem aumentar a sua consciência na estrada e dirigir com consciência. É melhor começar por nós mesmos. Somente com essa atitude anti-ego, pode dar um grande passo em frente na sua segurança e dos outros.

Diz Jens Dralle: “Como utilizador rodoviário, nunca devo esperar que outros pensem bem por mim e paguem pelos meus erros. Nem posso esperar que a infraestrutura melhore. Para todos os envolvidos no tráfego rodoviário, isso significa: Dirija com visão e antecipação. Tenho que conhecer o potencial do meu veículo e ser claro sobre o que posso e o que não posso fazer.”

Três regras de ouro para automobilistas

1. Melhor olhar três vezes: as motos são estreitas e aceleram rapidamente. Mesmo se estiver a conduzir à velocidade correta, chegará mais rápido do que o esperado. Por isto mesmo, num cruzamento não deve parar na frente de uma moto que se aproxima. 

2. Distância nas curvas: Quando uma moto – especialmente em piso molhado – faz uma curva devagar, mantenha-se a uma distância de segurança suficiente. 

3. Parceria: os motociclistas têm agora em média 45 anos e, na sua maioria, não são jovens e nem querem ser colocados no seu lugar. Respeite-os.

Três regras de ouro para motociclistas

1. Torne-se perceptível antes de situações perigosas: Mesmo movimentos evasivos leves ou movimentos de direção vão despertar a atenção do condutor do carro.

2. Não insista no seu direito de passagem: solte o acelerador em tempo útil e esteja pronto para travar. Não espere que os outros o façam por si.

3. Leve em consideração os erros dos outros: Dirija sempre com visão para não ficar para trás.

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