De conto de fadas a pesadelo
Há algum tempo que se fala da condição financeira da marca de Varese, que parece estar (outra vez!) à beira da falência.
“Fundos esgotados, produção parada”, segundo um dos delegados sindicais. A crise no fabricante de motociclos — que tinha sido salva do colapso em 2015 — coloca 184 postos de trabalho em risco. A produção está parada desde abril, os trabalhadores estão em regime de “contratos de solidariedade” (redução do horário de trabalho com subsídio salarial estatal) até ao final do ano, uma prometida recapitalização de 35 milhões de euros nunca se concretizou, e estão em curso negociações secretas para vender a empresa a um fundo de investimento.
A MV Agusta está a “agonizar”, alerta Fabio Dell’Angelo, secretário-geral do sindicato Uil em Varese: “Fabricam um produto que ainda tem mercado, mas a empresa não tem recursos para manter as operações em funcionamento”.

Não há liquidez, ”não conseguem pagar aos fornecedores, e os 184 trabalhadores estão a sobreviver com o pouco que resta”, acrescenta Giorgio La Rosa, do sindicato Fiom Cgil em Varese. “Até agora, os salários estão a ser pagos, mas todos estão sob contrato de solidariedade, que foi prolongado até 31 de dezembro.”
“Este mês, trabalharão apenas 4 ou 5 dias”, observa Marinela Cozma, da Uil; “esta situação não pode durar muito mais tempo — está a tornar-se insustentável”.
Enquanto nenhuma moto nova sai das linhas de montagem, a equipa administrativa “trabalha para manter a aparência de uma empresa que ainda não morreu, especialmente nas relações com os restantes fornecedores e concessionários”.
Segundo o diário local ‘Il Giorno’, La Rosa não esconde os seus receios quanto à sobrevivência da lendária marca— um pilar da indústria da Lombardia e de Itália, de renome tanto nas estradas como, e ainda mais, nas pistas de corridas, graças à sua célebre parceria com Giacomo Agostini.
Agora, após a desistência da empresa chinesa CFMOTO, um possível comprador, “temos esperança de que as negociações com um misterioso parceiro financeiro cheguem a um desfecho bem-sucedido”.
O misterioso financiador pode ser a ‘Art of Mobility S.A.’, empresa sediada no Luxemburgo controlada pela família de Timur Sardarov; Entre 2024 e 2025, a família retomou o controlo total da MV Agusta após o colapso do Grupo KTM, a quem tinha vendido a marca no início de 2024.
De regresso à independência, a MV parecia pronta para atingir “novos patamares” — uma promessa feita por Sardarov em janeiro de 2025, ao comprometer-se a ser “uma força vital para a nossa empresa, para a região e para todos os nossos parceiros”.
No entanto, o conto de fadas chegou ao fim passado apenas um ano. “Estamos a atravessar uma fase delicada, na qual ainda não podemos partilhar informação que está em constante evolução”, reconhecem hoje os proprietários, mantendo o sigilo absoluto. Mais detalhes serão divulgados “logo que tenhamos informações concretas e oficiais para comunicar”.

Entretanto, “em agosto, a empresa iniciou um processo de negociação para a resolução da crise, visando proteger-se das reivindicações dos credores — especialmente da KTM e dos fornecedores”, noticia La Rosa. “Está marcada uma audiência para 25 de novembro no Tribunal de Varese para decidir se as medidas de proteção serão confirmadas, revogadas ou modificadas. Se algo correr mal e não surgir nenhum novo comprador, tememos que o risco de falência possa tornar-se realidade.”
Entretanto, pilotos e entusiastas da marca realizaram uma concentração onde a história do fabricante começou para celebrar a sua glória, tanto nas pistas como nas estradas. O programa incluiu um desfile num dos poucos circuitos de rua que restam em Itália e, no aniversário da última vitória da lenda Giacomo Agostini, contou com a presença de outros notáveis ex-campeões da MV Agusta como Gianfranco Bonera e Luca Ottaviani.
















