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Técnica – O mito do domínio chinês

Paulo Araújo por Paulo Araújo
23 Fevereiro, 2026
em Acessórios / Equipamentos, Crónicas, Destaque Homepage
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Técnica – O mito do domínio chinês
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A China fabrica, mas as máquinas com que o faz (ainda) são ocidentais

À primeira vista, a China está a tornar-se num colosso industrial que vem dominando completamente a indústria em todas as frentes. Adquira-se um computador, uma ferramenta, um eletrodoméstico hoje em dia, e, independentemente da fonte de importação ou da marca ‘parecer’ europeia, inspeção mais detalhada revelará que foi, de facto, fabricado na China.

Isto teve várias razões, a principal das quais foi a ganância das próprias empresas ocidentais. Ao longo das últimas duas décadas, fecharam sistematicamente plantas de produção na Europa, eliminando milhões de postos de trabalho e indústrias inteiras do mapa, para entregar o fabrico ‘mais barato’ à China.
Esqueceram-se, ou não consideraram, que no processo, permitiram à China criar uma base industrial no que era o mais populoso país do mundo. Mão de obra barata aos milhões sempre tiveram. Matérias-primas, também. Faltavam o conhecimento e as capacidades fabris, e foram essas que o ocidente entregou, aparentemente empenhando o seu futuro.

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Passemos para o tempo atual. A China já não é um mero imitador, aprendeu a criar, a fazer com qualidade e numa escala com que o Ocidente só pode sonhar. Quer isso dizer que está tudo perdido? Felizmente, não. Não é bem assim.
Se na superfície, nos objetos com que os consumidores lidam diariamente, a batalha parece perdida, contemplando a um nível mais profundo os processos industriais, o ocidente ainda domina, e falo-á no futuro discernível. Estamos a falar das máquinas e processos industriais que permitem aos chineses operar à mais alta precisão exigida para fabricar um motor moderno. Essas máquinas e processos são ocidentais e os chineses estão a décadas de os poder (ou querer, sequer) replicar.

São máquinas e processos tão exclusivos e com aplicações industriais tão específicas e complexas que o consumidor médio nem está ciente da sua existência. As aplicações são na indústria automóvel e aeronáutica, defesa, equipamento hospitalar e eletrónica de consumo. Por outras palavras, os seus produtos estão a toda a nossa volta, sem nos darmos conta.

Vamos tomar o fabrico de uma cambota como exemplo. É um componente complexo, o coração de qualquer motor a explosão, que partindo duma peça em bruto, necessita de maquinação, corte de superfícies e engrenagens, têmpera, perfuração, tratamentos térmicos, indução eletromagnética e polimento, operações todas efetuadas com uma precisão de microns, ou seja, milésimos de milímetro.

O conjunto de processos e máquinas que o fazem não são chineses, antes, são ocidentais, das mais variadas origens desde a Alemanha, Espanha, Inglaterra, Itália aos Estados Unidos.
Começando então da peça em bruto, que terá sido vazada num molde rudimentar, só com a forma básica, esta é primeiro montada num torno Niles-Simmons dos EUA com cabeças de corte que operam em 5 eixos e desbastam e cortam as chumaceiras de alta precisão onde irão operar os rolamentos. A cambota é de seguida perfurada para obter os orifícios que assegurarão a circulação do óleo na peça acabada. Isto é feito por brocas de alta precisão duma empresa espanhola chamada Acita.

Segue-se tratamento de superfícies por aplicação de indução eletro-magnética, especialidade da Helotherm, parte do grupo alemão SMS, que induz endurecimento das superfícies exteriores sem comprometer a flexibilidade da peça. Outras perfurações, mais uma vez a cargo de uma máquina da Acita que opera em 5 eixos, aligeiram a peça.
Após desbaste em dois graus de precisão a cargo duma máquina CBN da Landis inglesa, que também corta roscas onde necessário, a precisão dos cortes é medida por um conjunto de máquinas italianas de medição de precisão Marposs.

Finalmente, o polimento que assegura um equilíbrio perfeito da peça está a cargo da Nagel alemã, processo de uma precisão tal que pode, só por si, assegurar uma economia de combustível de entre 7 e 10%. Isto tudo opera num conjunto de máquinas do tamanho dum pequeno quarteirão que custam milhões e exigem técnicos especializados para manter afinadas.
Afinação minuciosa de todos os parâmetros como temperatura e humidade ambiente, estabilidade térmica e regulações de pressão, apertos e ajustamentos são críticos e confiados a operários ocidentais que operam como consultores especializados nas fábricas chinesas.
Ou seja, no aparente domínio chinês, o ocidente não ficou de fora, meramente se elevou a um plano superior, de tal modo especializado e complexo nos processos de fabrico, a que a China não pode, nem para já, nem nos próximos tempos, aceder.

Tags: ChinafabricoocidenteTécnica
Paulo Araújo

Paulo Araújo

Com uma experiência de várias décadas no âmbito do motociclismo, viajou pelo mundo cobrindo eventos nas duas rodas. Já foi piloto de velocidade, team manager, instrutor, jornalista e comentador de rádio e televisão, especializando nas modalidades de velocidade, em particular MotoGP, SBK e Endurance.

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