
por Pedro Alpiarça | Colaborador revista MOTOS
O frio e a chuva tinham chegado. Fruta da época, como se costuma dizer. Também se diz que não existem más condições, existe apenas equipamento desadequado. E perante este chorrilho de frases feitas, desculpem-me por ter vociferado uns valentes palavrões dentro do capacete enquanto deslizava pelo asfalto atrás da minha moto. No sentido literal e não figurativo, ou seja, um belo espalho
Eu sabia que iria apanhar chuva naquele dia. As apps e as redes sociais substituíram o Anthímio de Azevedo e as suas previsões, e nesses dias cinzentos não havia margem para grandes dúvidas. Entre o desconforto e o risco associado, a alternativa de levar o carro e ficar sujeito a horas de trânsito intenso simplesmente não era viável, e como tal, preparei toda a logística habitual, desde o equipamento impermeável à viseira com pinlock. Para terem noção do nível de antecipação, a escolha dos meus pneus foi influenciada para estes dias, sendo que no Verão sofro as consequências de ter uma borracha rica em sílica. Todo um esquema mental potenciador de confiança, aquela arma secreta que nos dá a atitude necessária para enfrentar as dificuldades.
Não existe a necessidade de um grande relato para o infortúnio, até porque nos dias que correm ainda não encontro grande explicação para o sucedido. Não foi na entrada da curva, não foi no processo de travagem, não foi com excesso de velocidade. Praticamente a direito, ela perdeu tração (sem aviso eletrónico de qualquer espécie) e quando ganhou de novo atrito, forçou a frente a desistir. Tudo isto numa fração de segundos. Não sendo novato nestas lides de perder a luta contra a gravidade, o mecanismo de defesa entrou em ação e a queda em si teve muito pouco de espectacular. Valham-nos aqueles ferros inestéticos que protegem a máquina nestas ocasiões e os danos que surgiram são absolutamente irrisórios. Exceto no ego. E nas respostas.
Talvez existisse óleo ou resquícios de gasóleo na estrada, não voltei atrás para verificar. Devia tê-lo feito. A minha bagagem mental com toda a experiência acumulada nestas condições foi largamente esvaziada. É absurdo como as quedas afetam toda a nossa construção de recursos, sobretudo quando não conseguimos atribuir culpas para o nosso comportamento. Eu acreditava estar pronto para enfrentar os elementos, tomando as decisões certas e confiando no equipamento.
Mas sabem que mais? Temos de aceitar que é apenas uma questão de probabilidade.
A certeza é só uma, no dia em que cairmos, prevalece a noção de que o material de segurança que nos reveste pode salvar-nos de consequências mais nefastas. Nos dias seguintes parecia uma velhinha de andarilho, curvava como se tivesse rodinhas de aprendizagem. Não existe nenhum tipo de heroísmo quando andamos de moto nestas condições, e a humildade tem de andar de mãos dadas com uma atitude preventiva. O facto de ter caído por ter acelerado (e não acontecer por estar “pendurado nos travões”), serve apenas para aumentar a taxa de bazófia nas conversas de amigos. E, felizmente, sobrevivi a mais um inverno …














