Com a sua forma simples de encarar o mundo, o Gil desmontava todos os adjetivos com que eu catalogava as motos de teste que ele ia encontrando na garagem. Esta típica leveza infantil, fazia com que perguntasse coisas sem, na verdade, ter muita paciência para ouvir o pai falar de cilindros e cavalos, e reduzia a explicação a uma expressão bastante direta. “OK, OK… Mas então é canhão ou charuto?”

Muito provavelmente ouviu este comentário mais boçal quando assistiu a conversas com os meus amigos (vá lá saber-se como é que os miúdos apanham estas coisas…), mas o facto é que a assertividade da escolha ajudava na definição do objeto em si. Para ele era fácil engavetar a opinião sobre aquela máquina entre dois pressupostos bastante mais intuitivos, para a partir daí construir a sua própria análise. Às vezes até me deixava dissertar um pouco sobre a matéria, um verdadeiro luxo, visto que a duração da atenção e foco de uma criança é mais efémera que a passagem de um cometa.
Tendo a noção de que sou mais complicado do que deveria ser a sintetizar informação, este silogismo ajudou-me a clarificar as minhas dissertações, e a criar camadas mais ou menos sofisticadas à volta do conceito. Em boa verdade vivemos num mundo altamente polarizado, onde os diferentes gradientes de cinzento desapareceram por completo, e o branco ou o preto são as escolhas possíveis. Divirto-me muito a tentar não cair neste engodo.
Sou presença assídua no salão da EICMA, e na última década foram poucos os anos que falhei. A magnitude do evento é absolutamente incomparável, com pavilhões gigantescos onde a nossa atenção é constantemente desafiada, numa taquicardia para os sentidos patrocinada pela paixão das duas rodas.
Um mundo onde se misturam todas as novidades sobre motos e equipamento, e onde sobretudo nos sentimos uns privilegiados pela experiência de sermos os primeiros a observá-las. Claro que existem anos mais ou menos profícuos na quantidade de modelos apresentados, sobretudo quando falamos das marcas mais emblemáticas do nosso mercado. E sim, já vai longe o espanto com a avalanche asiática, mesmo acreditando que a nossa periferia não consegue absorver toda aquela escolha, é importante estarmos atentos a esta mudança na indústria. Europeus e japoneses estão com certeza…
No final do dia, já cansado de tanto palmilhar e cada vez mais desconcentrado (o erro clássico que muitas vezes nos faz perder uma ou outra novidade mais “quente”), decidi jogar ao jogo do canhão e do charuto. E esta ideia gloriosamente idiota deu-me o alento necessário para sobreviver aos últimos dois pavilhões. Perante stands de marcas perfeitamente virgens no mundo ocidental, este vosso cromo analisava cada nova trail, scooter elétrica ou pequena desportiva sobre este paradigma. Com vistorias mais ou menos minuciosas, fazia mesmo questão de dar o veredicto em voz alta, cheio de convicção. Não bastava às meninas de trajes reduzidos terem de aturar rebarbados todo o santo dia, só faltava um maluco vociferar umas coisas em português…















