Enquanto as marcas produzidas na China se preocupavam em lançar opções trail em catadupa e renovar ou ampliar a oferta nas scooters, a espanhola MITT, que também se serve do mercado oriental para completar o seu catálogo, surpreende com uma moto desportiva de vocação utilitária, apesar da estética desportiva transmitir um espírito agressivo e rebelde. Todo um novo desafio ao universo desportivo, sempre bem-vindo para todos aqueles que gostam de desfrutar das sensações desportivas

por Luis López Lozano • Fotos Israel Gardyn

As tendências servem para preencher lacunas momentâneas dos ímpetos dos consumidores e depois têm tendência a desaparecer, tornando-se um nicho de mercado ou até mesmo extinguindo-se por completo. No início deste século, as motos desportivas eram rainhas e senhoras, dando continuidade à geração anterior, consolidando de forma gradual o domínio absoluto como consequência do nível tecnológico que ofereciam ao mercado. Foi uma época marcada por motos incríveis que superavam largamente as anteriores gerações, tornando-se cada vez mais equilibradas, rápidas, seguras e, claro, também mais caras…

Um preço perfeitamente justificado pela tecnologia e materiais de alta qualidade empregues na época.
Hoje em dia, e pelas mais diversas razões, as motos focadas na qualidade e altas prestações foram reduzidas a um grupo restrito que continua a resistir, muito por culpa das novas prioridades do mercado, que deixou de dar tanto valor à qualidade e aos componentes de última geração e passou a olhar mais para o preço final… quanto mais baixo, melhor! E se falamos da carta A2, que nos abre as portas para as motos “à séria”, ou ainda mais no segmento das 125 cc que podem ser conduzidas com carta de automóvel, isto multiplica-se por mil, na caça ao recém-encartado. Como vemos, com a passagem dos anos e com as diferentes gerações de motociclistas, as exigências, justificadas ou não, também se vão adaptando aos tempos que vivemos. O chamado “veículo de luxo” como são consideradas as motos tem tendência a padronizar-se para sobreviver, e talvez criações como esta MITT 775R pretendam demonstrar o contrário, sem esquecer que nos encontramos numa época em que o preço é que manda! Como podemos ser originais sem nos afastarmos dos preços baixos?

Da Espanha para a Europa
Como muitos saberão, a MITT é uma marca espanhola de motos que tem a sua produção na China; uma política que não é única entre a sua espécie e que é seguida por outras marcas espanholas as quais, para personalizar os seus produtos, estabelecem desde logo parâmetros concretos de qualidade que possam melhorar o que já é oferecido pelo mercado oriental. Neste caso, e através da colaboração com a empresa europeia Suter, estamos perante uma moto efetivamente espanhola, fabricada na China e, atenção, com objectivos claros de conquistar o nosso coração desportivo, sem esquecer a vertente utilitária e um certo grau de polivalência necessários numa moto com aspirações de ser a primeira escolha para muitos dos novos utilizadores. Será que qualquer moto consegue reunir todos estes requisitos? Não, mas a MITT que aqui vemos traçou esse objectivo e arrisca tudo como a grande parte dos fabricantes não consegue fazer, através de uma estética que não deixa ninguém indiferente… E podemos afirmar por experiência própria, durante os dias em que a tivemos para teste: durante a semana que esteve nas nossas mãos, não parámos de dar explicações a quem connosco se cruzou… muitos limitaram-se a apreciar as linhas da 775R, mas a grande maioria não resistiu em questionar sobre que motor se encontra debaixo destas exóticas carenagens.

Pois bem, comecemos então por aí. Trata-se de um dois cilindros paralelos com oito válvulas que debita 85 cv às 8500 rpm. Sem necessidade de controlo de tração, nem caixa com assistência semi-automática, é capaz de nos brindar com boas sensações em aceleração, assistido por uma caixa de seis velocidades (e sistema anti-bloqueio da roda traseira) bem escalonada, mas com algumas particularidades de que daremos conta mais adiante. Tudo isto sem esquecer a embraiagem que é o mais parecido a manteiga que já tivemos a oportunidade de testar em muitos anos. A chave por aproximação permite o acesso ao funcionamento do conjunto através de um painel TFT a cores de 5”, onde encontramos a conectividade por “Bluetooth” e “wi-fi” que nos possibilita, por exemplo, espelhar o ecrã dos nossos telemóveis.

A iluminação por LED completa o pacote tecnológico moderno, mas não se fica por aqui, já que o quadro, uma dupla trave de alumínio, completa-se através de um pouco comum e espectacular, mono-braço oscilante, fabricado também em alumínio. Os travões, pinças e bomba radiais, são cortesia da Brembo com ABS de duplo canal, enquanto que as suspensões estão a cargo da KYB. Referir ainda que os comandos dos punhos, que nos permitem navegar pelo TFT são retro-iluminados que na verdade, salvo para os utilizadores menos experientes, não é um extra imprescindível. Chegou o momento de parar com a conversa e partirmos para a estrada, para colocar à prova todas as qualidades supra mencionadas.

Modo Sport/Turismo
Se à primeira vista não parece tanto, quando a colocamos em andamento, confirmamos: não se trata de uma moto desportiva extrema, mas sim de uma sport-turismo mais cómoda do que poderíamos imaginar no início. De facto surpreende a facilidade com que viramos o guiador, algo que agradecemos verdadeiramente quando rodamos por entre o denso trânsito na cidade. Embora seja uma moto com grande distância entre eixos, move-se com grande liberdade pelas ruas, compensando de alguma forma o firme comportamento das suspensões, com curso limitado, principalmente sentido no monoamortecedor traseiro, que nos brinda com umas pancadas algo secas nos rins, cada vez que passados por pavimentos mais degradados. Talvez seja o seu caráter desportivo a vir ao de cima, mas agradecia-se maior cuidado neste aspecto, dadas as pretensões de ser um modelo mais vocacionado para um público mais generalista e não tão desportivo.
À parte da direção leve, também a embraiagem e a caixa funcionam muito bem, de forma muito leve, o que é de agradecer tendo em conta que temos que abusar um pouco da manete esquerda em cada viagem, para evitar as vibrações extra que surgem quando não o fazemos. Por outro lado, a ergonomia é algo particular, com um guiador com semi-avanços colocado nem muito alto, nem muito baixo, mas com um assento rijo e recuado face ao “semi”, sobretudo se a nossa estatura fica abaixo da média europeia (entre 1,75 e 1,84 m).

E como nos afeta isto na estrada? Mais do que explicar como isso nos afeta, diria que a estrada aberta é o seu meio natural. Aqui, a postura que adoptamos aos seus comandos é perfeita para rodar aos comandos desta MITT, tentando evitar que o que nos chega ao capacete proveniente da cúpula que cumpre mais com uma função estética do que prática. No geral, flui melhor em estradas de montanha e melhor ainda se juntarmos a isso um asfalto cuidado, melhor ainda! É aqui que vemos o propósito das suspensões, cujo comportamento é irrepreensível, tal como a restante ciclística, oferecendo-nos uma estabilidade inabalável, mesmo quando apertamos o ritmo.
Sim, é uma moto onde sentimos a grande distância entre eixos, mas muda de direção sem grandes esforços; além disso, mantém a trajetória com sobriedade mesmo nas curvas mais rápidas. Se a tudo isto juntamos uma travagem contundente, isso sim, com um tacto um pouco “on/off” principalmente quando rodamos a ritmos mais contidos (podemos melhorar o seu comportamento através da purga do circuito e com umas pastilhas mais desportivas que as de série), estamos perante uma moto que efetivamente não vira as costas à utilização mais desportiva, ainda que o motor seja um pouco longo para espremer como deve ser o bicilíndrico, no entanto, é uma questão de rodar numa mudança mais baixa e obrigar o regime a subir.

Conclusão
Divertida e muito atraente, fica a certeza de que não passará despercebida por onde quer que vá, e quanto a nós, temos que nos preparar para as abordagens que vão ser constantes… Por pouco mais de 7.000€ e com a possibilidade de poder ser limitada a 35 kW para carta A2, pode ser uma opção muito interessante para todos aqueles que procuram a sua primeira moto desportiva, ou, por que não, a sua moto para uso diário.
Ficha técnica MITT 775R
Motor Bicilíndrico em linha, 4V, refrigeração líquida
Cilindrada 730 cc
Potência e rpm 85 cv às 8.500 rpm
Binário e rpm 72 Nm às 7.200 rpm
Embraiagem Multidisco em banho de óleo, anti-bloqueio
Caixa 6 velocidades, por corrente
Quadro Dupla trave em alumínio, monobraço oscilante
Suspensão dianteira Forquilha invertida
Suspensão traseira Monoamortecedor com bielas
Travão dianteiro 2 discos de 320 mm, pinças de montagem radial
Travão traseiro Disco de 240 mm
Pneu dianteiro 120/70-17”
Pneu traseiro 180/55-17”
Altura assento 790 mm
Peso (a seco) 205 kg
Capacidade depósito 14 litros
Consumo 4,3 l/100 km
Importador Puretech Motor
Preço 7.890 euros
PONTUAÇÃO
Estética 5
Prestações 3
Comportamento 3
Suspensões 3
Travões 3
Consumo 4
Preço 4
















