A História da Honda no Rali Dakar – 2ª parte

By on 21 Dezembro, 2020

O regresso da Honda ao Dakar com uma equipa oficial deu-se em 2013, após uma ausência de 24 anos! E até à vitória em 2020 do americano Ricky Brabec, muita coisa aconteceu, com o contributo de duas das melhores mais-valias lusas: Paulo Gonçalves e Hélder Rodrigues.

Após mais de duas décadas de ausência na corrida mais difícil do mundo, a Honda voltava com  um projeto oficial e um objetivo: vencer o Dakar novamente, e acabar com a sequência de vitórias consecutivas da KTM.

Depois de um longo caminho, marcado por vários destaques e uma progressão constante, a marca da asa dourada atingiu o seu objetivo em 2020 com um triunfo indiscutível do americano Ricky Brabec, que devolveu a Honda ao topo do Dakar 31 anos depois da sua última vitória, quebrando a sequência de 18 vitórias da KTM. Recomendamos a leitura da 1ª parte deste artigo AQUI

2013: O regresso ao Dakar

Continuando com a história das motos Honda no Dakar, o objetivo era abrir caminho para a próxima Africa Twin, que seria apresentada em 2016. Mas enquanto isso, as próprias regrar do Dakar mudaram muito. Os motores bicilíndricos tinham sido banidos em 2005, o rali tinha-se mudado para a América do Sul para a edição de 2009, e em 2011 a cilindrada passou a estar limitada a 450cc. Assim, era compreensível que a moto escolhida para o regresso da Honda ao Dakar em 2013 tivesse como base a CRF450X.

O compacto motor quatro tempo monocilindrico com sistema de válvulas Unicam (as válvulas de admissão são ativadas diretamente pela árvore de cames, enquanto as válvulas de escape são ativadas por um balanceiro), foi projetado para oferecer uma forte saída em baixas rotações. O melhor piloto da Honda foi o português Hélder Rodrigues, que ficou em 7º lugar na CRF 450 Rally; todo o trabalho preliminar estava feito.

2014: Nova tecnologia para a CRF 450; 5º lugar de Hélder Rodrigues

E de novo a história se repete. A HRC reconhece que, para vencer em uma competição tão exigente teria que projetar uma nova moto. Tecnicamente, a CRF450 Rally de 2014 não tinha muito em comum com a sua antecessora. O conceito Unicam, que tinha sido usado em todas as Hondas off-road até aquele ponto, foi substituído por um protótipo com trem de válvula DOHC (Double Head tree). O motor monocilíndrico de alta rotação alcançava uma potência máxima de cerca de 60 cv. O quadro também foi altamente modificado. O sub-quadro convencional também foi substituído por um estreito monobloco de carbono e os depósitos de gasolina dianteiros estreitaram-se na área inferior.

Ambas as modificações proporcionavam uma maior liberdade de movimentos e melhor capacidade de gestão do piloto. A distância entre eixos da moto também foi alongada para proporcionar mais estabilidade em reta e para se adequar a uma velocidade máxima de 175 km/h.

Outra mais-valia era o sistema de controle de tração: algo totalmente novo nas motos de rally. Sensores nas rodas dianteira e traseira monitorizavam a velocidade das rodas. Por exemplo, se a roda traseira patinasse, o sistema de gestão do motor reduzia a potência injetando a ignição. Isso ajudava a evitar picos nas rotações do motor e a proteger os pneus. Especialmente nas etapas de maratona, onde os pneus têm que sobreviver a duas etapas e as reparações só podem ser feitas com ferramentas a bordo, isso trazia uma grande vantagem.

Além disto, em comparação com a versão anterior, a nova CRF450 Rally era 10 kg mais leve, com 170kg com o depósito cheio. Mas quando apareceu na América do Sul, a sorte não estava do seu lado. O recém-contratado, Joan Barreda, bateu o recorde de cinco vitórias em etapa, mas acabou por pagar com as suas frequentes quedas. Novamente, Hélder Rodrigues foi o melhor piloto da Honda, com um quinto lugar.

2015: Chegada em força da eletrónica e o 2º lugar de Paulo Gonçalves no Dakar

Para o Dakar de 2015, a CRF450 Rally foi novamente melhorada. Em vez de um cabo convencional de acelerador, as borboletas de injeção eram agora controladas eletronicamente por um moderno acelerador fly-by-wire. Como resultado, o controle de tração reagia de forma mais sensível e o consumo de gasolina foi reduzido. Desta vez, o plano parecia funcionar. Barreda liderou a prova até que o deserto de sal inundado de Uyuni, na Bolívia, virou a maré da sorte para o espanhol.

A água salgada infiltrou-se nos componentes eletrónicos da moto de Barreda e o espanhol teve que ser rebocado até a linha de chegada. O sonho da vitória estava tentadoramente próximo, mas o Dakar pregava mais uma partida. No entanto, o seu companheiro de equipa, Paulo Gonçalves, terminou em segundo na classificação final, com a repetição do memorável pódio duplo de 1982.

E o desenvolvimento da CRF450 Rally não pára. São aplicadas suspensões semi-ativas anteriormente aplicadas em motos de estrada – a HRC adapta a nova tecnologia a uma das quatro CRF 450 Rally antes do Dakar de 2016. Ao início, o amortecimento só poderia ser ajustado manualmente, mas depois são usados componentes de suspensão que se adaptam automaticamente ao terreno. Mas na edição de 2016, Uyuni mais uma vez afoga as esperanças da Honda, depois de Barreda perder quase cinco horas devido a um problema de motor.

PAULO GONÇALVES NO DAKAR DE 2016

Em 2018 as motos de fábrica da Honda deixam de usar suspensões eletrónicas, mas essa tecnologia passa a ser aplicada à nova Africa Twin, em mais um exemplo de como a tecnologia de competição pode ser aplicada em motos de série.

2019: Muito perto da vitória

No geral, nos últimos tempos, os pilotos da HRC parecem em absoluto dependentes da sorte. Apesar de muitas vitórias em etapas, os inúmeros desafios do Dakar acabam ivariavelmente por frustar os seus objetivos. Em 2019, a vitória do californiano Ricky Brabec parecia estar ao alcance, tal como Barreda em 2015. O especialista no deserto estava na liderança, mas a três dias do fim o seu desafio terminou mais cedo… no fesh-fesh do Peru. Mais uma vez o destino virava as costas à marca da asa dourada, mas o sabor da vitória estava lá.

2020: Brabec e Honda no topo

No Dakar de 2020, a sorte parece ter mudado. Nos desertos da Arábia Saudita, Brabec, de 28 anos, assume a liderança no terceiro dia e defende a sua posição como líder com grande firmeza ao longo dos 7.800 quilômetros. A vitória do americano foi indiscutível, já que Brabec liderou a partir do terceiro dia e prevaleceu com uma vantagem de 16 minutos. Nacho Cornejo e Joan Barreda também somam vitórias em etapaS para a Honda.

E assim, depois de sete tentativas no rally mais exigente do mundo, as peças do quebra-cabeças finalmente se encaixam umas nas outras. A equipa Honda retorna ao lugar que havia alcançado pela primeira vez em 1982 no Lago Rosa, em Dakar: o degrau mais alto do pódio.

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