Os puristas não aceitam, mas é cada vez mais o futuro
Esta cruiser com motor V4 da QJ Motor contará em breve com uma transmissão automática, e os puristas ficarão certamente furiosos. Se passou mais de cinco minutos nas redes sociais sobre motos ultimamente, provavelmente já viu os comentários. Cada vez que um fabricante anuncia uma transmissão automática, uma certa parte da internet reage como se alguém tivesse acabado de propor a proibição total das caixas manuais.
A indignação é, normalmente, imediata, previsível e completamente desligada da realidade. Porque, apesar de todo o pessimismo, as motos manuais ainda superam largamente as automáticas, e ninguém está a obrigar ninguém a comprar nada que não queira.

O mais recente alvo desta indignação é a SRV 600 V4 da QJ Motor. Documentos de homologação recentemente divulgados da China mostram a empresa a preparar uma versão automatizada-manual da sua cruiser com motor V4. O sistema parece utilizar borboletas de mudança de velocidades montadas no guiador esquerdo, enquanto os atuadores eletrónicos controlam a embraiagem e as mudanças de velocidade.
A tradicional manete de velocidades desapareceu e tudo indica que o travão traseiro também pode ter sido recolocado no guiador esquerdo, criando uma experiência de condução muito mais próxima de uma scooter do que de uma moto convencional. Antes que alguém comece a digitar comentários furiosos no Facebook sobre a morte do motociclismo como o conhecemos, vamos dar um passo atrás e analisar o que a QJ Motor está realmente a construir aqui.
A SRV 600 V4 é já uma das cruisers mais invulgares do mercado. Disponível tanto no estilo cruiser tradicional como numa versão que se inspira bastante na estética da Harley-Davidson Fat Bob, a moto utiliza um motor V4 de 561 cc que produz, segundo o fabricante, 67 cavalos de potência. Esta é uma configuração bastante distinta num segmento onde os motores bicilíndricos paralelos e V-twin dominam quase tudo. Para já o modelo não existe em Portugal, até pelos números modestos de vendas neste segmento.

A versão automatizada não muda nada disto, fundamentalmente. A moto ainda utiliza uma caixa de seis velocidades. Transmite ainda a potência para a roda traseira através de uma correia. Tem até mudanças reais em vez de uma transmissão CVT, como normalmente se vê nas scooters. A única diferença é que a moto assume o controlo da embraiagem e pode realizar as passagens de caixa automaticamente. Esta não é uma mudança radical em relação ao motociclismo tradicional.
Na verdade, está a seguir um caminho que vários grandes fabricantes já começaram a explorar. A Honda tem vindo a comprová-lo há anos com a Rebel 1100 DCT. Os motociclistas que já conduziram esta moto depressa descobrem algo interessante: uma cruiser e uma transmissão automática complementam-se muito bem. As cruisers são concebidas para conforto, acessibilidade e condução descontraída. Não são máquinas feitas para recompensar mudanças de velocidade constantes ou técnicas de condução agressivas. Eliminar o trabalho da embraiagem permite simplesmente que os motociclistas se concentrem mais na estrada, na paisagem e na experiência em si.

Isto não é um compromisso. É uma característica que se alinha perfeitamente com o que muitos motociclistas de cruisers já procuram. Mais importante ainda, as motos automáticas ajudam a remover as barreiras de entrada. Todo o motociclista experiente se recorda de como era aprender a controlar a embraiagem, arrancar em subidas e fazer manobras a baixa velocidade. Embora estas competências acabem por se tornar instintivas, podem ser intimidantes para os iniciantes.
As transmissões automáticas reduzem a curva de aprendizagem e tornam as motos mais acessíveis a pessoas que, de outra forma, nunca considerariam conduzir. Este é um desenvolvimento positivo para uma indústria que fala constantemente em atrair novos motociclistas e aumentar a participação. O que sempre me intrigou na reação negativa é que ela trata o motociclismo como uma espécie de clube exclusivo que beneficia ao excluir pessoas.
A realidade é exatamente o oposto. Mais motociclistas significam mais motos vendidas. Mais motos vendidas significam fabricantes mais saudáveis, concessionários mais fortes, melhor apoio pós-venda e mais investimentos em novos produtos. Significa comunidades de motociclistas maiores, mais eventos, mais defesa da categoria e, em última análise, mais pessoas para partilhar a estrada.

O motociclismo sobreviveu à injecção electrónica, ao ABS, ao controlo de tracção, aos modos de condução, ao quickshifter, ao cruise control adaptativo, aos sistemas de radar e a uma longa lista de outras tecnologias que supostamente iriam arruinar tudo. E aqui estamos. Os motociclistas ainda conduzem. Os entusiastas ainda compram motos. Os track days ainda estão lotados. As estradas ainda estão cheias de pessoas a desfrutar de duas rodas da forma que lhes traz felicidade. O que acham? Portanto, se a QJ Motor quiser construir uma cruiser V4 automática, tudo bem. Se a Honda continuar a expandir a tecnologia DCT, também está tudo bem.
O mesmo acontece com os sistemas ASA da BMW, Y-AMT da Yamaha e AMT da KTM, que ainda há um par de meses explicámos em algum detalhe. A existência destas motos não diminui em nada as motos manuais. São simplesmente opções adicionais num mercado que beneficia de mais opções, e não de menos.Ao fim e ao cabo, ninguém lhe vai tirar a manete da embraiagem. Ninguém lhe vai confiscar o pedal de mudanças. As motos que já adora não vão desaparecer. Mas se as transmissões automáticas ajudarem a atrair mais pessoas para o motociclismo, isso é algo que vale a pena abraçar. O futuro do motociclismo depende de entusiasmar os novos motociclistas com as duas rodas, e não de os convencer de que estão a fazer alguma coisa mal antes mesmo de começarem.
















