Até em Portugal, as vendas de elétricas estão em franco crescimento

Em 2025, venderam-se em todo o mundo cerca de 10 milhões de motos e scooters elétricas, um recorde. Em Portugal, onde o mercado ainda é minúsculo, 2026 já superou o ano passado inteiro, quando se venderam menos de 500 unidades, incluindo ‘scooters’.
A eletrificação das duas rodas é muito mais avançada do que a dos automóveis, mas a história não se passa onde muitos imaginam. Segundo a Agência Internacional de Energia (AIE), venderam-se em 2025 quase 10 milhões de elétricas de duas rodas, cerca de 14% do mercado mundial, e, juntando as de três rodas, o total chegou a 11 milhões. A MotorcyclesData fala num recorde de 10,17 milhões (+19,7%), acima do máximo anterior de 2021, e em 2026 o ritmo acelerou: até ao início do outono, o acumulado crescia 18,6%.

Um mercado dominado pela Ásia: A China concentra a maior parte do volume, com mais de 7 milhões de unidades em 2025 e uma quota superior a 55% das duas rodas vendidas. A Índia é o segundo mercado, com cerca de 1,3 milhões, e o Vietname duplicou as vendas, para cerca de 735 mil. Estes três países representam cerca de 95% do total mundial.
Importa também perceber o que se vende. A esmagadora maioria são scooters e ciclomotores urbanos e comerciais, e as motos “a sério”, com caixa de velocidades e preço de moto convencional, são um nicho. A Europa pesa menos de 2% das vendas mundiais de elétricas de duas rodas, e os números variam muito conforme a definição usada, entre cerca de 160 mil unidades (contagem ampla da AIE) e 81 mil a 89 mil (apenas motos e scooters mais potentes). Qualquer que seja a contagem, o mercado europeu atingiu o pico em 2022, com cerca de 140 mil unidades, caiu três anos seguidos e voltou a crescer em 2026: 18,7% até julho, e as motos elétricas das cinco maiores economias europeias subiram 35,3% no primeiro semestre.

Marcos de uma história com vinte anos
- Anos 90: a portuguesa Famel desenvolve, com a EFACEC, a Electron, apontada como uma das primeiras scooters elétricas de série, vendida em pequena escala aos Correios franceses.
- 2006: nasce a Zero Motorcycles, na Califórnia.
- 2009 a 2014: a Energica começa a projetar uma superdesportiva elétrica italiana, a Ego, que chega ao mercado em 2014. No mesmo ano, a Harley-Davidson mostra o protótipo “Project LiveWire”.
- 2019: a LiveWire entra em produção e a Energica fornece em exclusivo as motos do campeonato MotoE.
- 2021: a Stark Future revela a Varg; a Harley cria a marca LiveWire para as suas elétricas; a Ola lança a primeira scooter na Índia.
- 2022: a LiveWire entra em bolsa; o mercado europeu atinge o máximo; em Portugal, a Famel mostra a E-XF.
- 2023 a 2024: a Ducati equipa a MotoE; Honda e Kawasaki lançam as suas primeiras elétricas europeias; em outubro de 2024 a Energica entra em liquidação.
- 2025: recorde mundial; a Famel estreia na EICMA; o MotoE faz uma pausa; a Honda prepara a WN7.
- 2026: a Zero faz vinte anos e a Índia bate recordes mensais.
As marcas e a sua evolução Yadea e a China. A Yadea é, de longe, a maior do mundo em unidades, com cerca de 3,9 milhões de vendas em 2024 e mais de metade do mercado chinês. A NIU vendeu cerca de 1,2 milhões em 2025 e tem crescido na Europa: mais de 2.500 unidades na Alemanha em 2025, contra 275 em 2024. São marcas de produção em massa, preços baixos e forte presença urbana. É por isso que a imprensa do setor fala de uma Europa cada vez mais dependente de importações chinesas.

Índia: TVS, Bajaj, Ather e a queda da Ola. A Ola foi líder durante três anos, mas as vendas desabaram em 2025, de 407 mil para 199 mil unidades (-51%), e a TVS assumiu o topo, com quase 299 mil. Em setembro de 2026, o mercado indiano bateu o recorde mensal, com mais de 207 mil unidades, e as elétricas já pesam mais de 11% das duas rodas vendidas.

Zero: A pioneira americana de 2006, fundada pelo engenheiro Neal Saiki, construiu a reputação com os modelos S, SR e DS e, em 2020, a SR/F e a SR/S, mais potentes. Continua a lançar novidades, como a XE de acesso, em 2025. Ainda assim, o distribuidor australiano foi liquidado em 2025, o que mostra como é difícil o nicho premium. Em 2026 celebra duas décadas com uma edição limitada da SR/F.

LiveWire: Saída da Harley-Davidson, passou de uma moto cara a uma gama mais acessível, com a S2 Del Mar (2022) e agora a S4 Honcho. Os volumes são pequenos: 660 unidades em 2023 e 612 em 2024. No segundo trimestre de 2026, as vendas da Livewire subiram 386%, com a nova plataforma já em produção.

Energica: A italiana (abaixo) foi uma das mais respeitadas no segmento de topo, com Ego (abaixo), Eva, EsseEsse9, Ribelle e Experia, e fornecedora do MotoE. Passou para controlo americano em 2022 e entrou em liquidação a 14 de outubro de 2024, apesar de recordes de vendas. Houve depois notícias de um possível resgate por investidores asiáticos, cujo estado atual ainda não foi confirmado.

Silence: A espanhola lidera as scooters elétricas em Espanha há oito anos, com 42,6% de quota no primeiro semestre de 2026, e vende também em Itália, França e Portugal.

Stark Future: Foi a grande surpresa do todo-o-terreno. A Varg, uma motocross elétrica de potência superior às de combustão, chegou em 2021 e tornou a marca rentável, com mais de 100 milhões de euros angariados. Através da App, é configurável para uma variedade de classes. Em 2024 chegou a versão de enduro homologada para estrada, a Varg EX, e a marca prepara agora modelos de estrada.

Honda, BMW, Kawasaki, Ducati: Os gigantes entraram devagar. A Kawasaki lançou a Z e-1 e a Ninja e-1 em 2024, que vende por menos de 10.000 Euros ao lado das convencionais a motor térmico. A Honda lançou o ciclomotor EM1 em 2024 e a scooter CUV em 2025, mostrou o conceito EV Fun, que deu origem à estradista WN7 (mais abaixo), e anunciou o objetivo de vender 4 milhões de elétricas em 2030.

A BMW já tinha a CE elétrica (acima) desde 2018 e a Ducati usou o MotoE para desenvolver a V21L, agora com baterias de estado sólido.

Da Vinci
A ser promovida online e destinada a ser revelada só na próxima EICMA, um vídeo da marca que já divulgaramos em agosto reclama um zero aos 100 de 3 segundos do motor de 95 kW (129 cv) e 850 Nm, 4 modos de condução incluindo relax, road, sports, e race, além de tempos de recarga referenciais. Ativação por cartão, ligação a uma App no telemóvel para controlo remoto e instrumentos em écrã TFT combinam com um massiço monobraço oscilante, garfo invertido, travões radiais da Brembo com travagem combinada e a promessa de uma autonomia de pelo menos 400 Km.

Portugal: crescimento rápido a partir de uma base mínima Segundo a ACAP, as motos elétricas matriculadas em Portugal foram 460 em 2025, mais 10% do que em 2024, cerca de 1% de um mercado de 43.995 motociclos novos. Em 2026 o salto é grande: 289 unidades no primeiro trimestre (+165%), 438 no primeiro semestre (+98%) e 597 até agosto (+89,5%), já mais do que todo o ano passado. Mesmo assim, as elétricas pesam só 1,6% das 36.690 motos novas matriculadas, num mercado geral em forte alta de 17,9%.
O Fundo Ambiental apoia a compra de motos elétricas novas com 50% do valor, até 1.500 euros, e as candidaturas mais recentes abriram no final de 2025 e de novo em 2026. Em edições anteriores, a verba para motos esgotou em poucas horas.

A marca elétrica portuguesa por excelência é a Famel. Depois de fechar nos anos 90, voltou em 2021 com a E-XF, inspirada na mítica XF-17. Apresentou a versão final (acima) na EICMA, em novembro de 2025, com motor de 5,5 kW, até 120 km de autonomia e cerca de 7.000 euros, com as primeiras 100 unidades previstas para o início de 2026 dependente de financiamento.

O que podemos esperar O motor do crescimento mundial continua a ser o utilitário urbano, barato e asiático. As motos elétricas de lazer ainda enfrentam os desafios de preço, autonomia e rede de carregamento, tanto que algumas, como a Energica falada acima e a Damon canadiana, já faliram. Mas os sinais de 2026 são claros: recorde mundial de vendas, recuperação europeia e Portugal a crescer perto dos 90%.















