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O ‘boom’ das motos elétricas: de nicho a fenómeno global

Paulo Araújo por Paulo Araújo
19 Outubro, 2026
em Crónicas, Destaque Homepage, Elétricas
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O ‘boom’ das motos elétricas: de nicho a fenómeno global
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Até em Portugal, as vendas de elétricas estão em franco crescimento

Em 2025, venderam-se em todo o mundo cerca de 10 milhões de motos e scooters elétricas, um recorde. Em Portugal, onde o mercado ainda é minúsculo, 2026 já superou o ano passado inteiro, quando se venderam menos de 500 unidades, incluindo ‘scooters’.
A eletrificação das duas rodas é muito mais avançada do que a dos automóveis, mas a história não se passa onde muitos imaginam. Segundo a Agência Internacional de Energia (AIE), venderam-se em 2025 quase 10 milhões de elétricas de duas rodas, cerca de 14% do mercado mundial, e, juntando as de três rodas, o total chegou a 11 milhões. A MotorcyclesData fala num recorde de 10,17 milhões (+19,7%), acima do máximo anterior de 2021, e em 2026 o ritmo acelerou: até ao início do outono, o acumulado crescia 18,6%.

Um mercado dominado pela Ásia: A China concentra a maior parte do volume, com mais de 7 milhões de unidades em 2025 e uma quota superior a 55% das duas rodas vendidas. A Índia é o segundo mercado, com cerca de 1,3 milhões, e o Vietname duplicou as vendas, para cerca de 735 mil. Estes três países representam cerca de 95% do total mundial.
Importa também perceber o que se vende. A esmagadora maioria são scooters e ciclomotores urbanos e comerciais, e as motos “a sério”, com caixa de velocidades e preço de moto convencional, são um nicho. A Europa pesa menos de 2% das vendas mundiais de elétricas de duas rodas, e os números variam muito conforme a definição usada, entre cerca de 160 mil unidades (contagem ampla da AIE) e 81 mil a 89 mil (apenas motos e scooters mais potentes). Qualquer que seja a contagem, o mercado europeu atingiu o pico em 2022, com cerca de 140 mil unidades, caiu três anos seguidos e voltou a crescer em 2026: 18,7% até julho, e as motos elétricas das cinco maiores economias europeias subiram 35,3% no primeiro semestre.

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Marcos de uma história com vinte anos

  • Anos 90: a portuguesa Famel desenvolve, com a EFACEC, a Electron, apontada como uma das primeiras scooters elétricas de série, vendida em pequena escala aos Correios franceses.
  • 2006: nasce a Zero Motorcycles, na Califórnia.
  • 2009 a 2014: a Energica começa a projetar uma superdesportiva elétrica italiana, a Ego, que chega ao mercado em 2014. No mesmo ano, a Harley-Davidson mostra o protótipo “Project LiveWire”.
  • 2019: a LiveWire entra em produção e a Energica fornece em exclusivo as motos do campeonato MotoE.
  • 2021: a Stark Future revela a Varg; a Harley cria a marca LiveWire para as suas elétricas; a Ola lança a primeira scooter na Índia.
  • 2022: a LiveWire entra em bolsa; o mercado europeu atinge o máximo; em Portugal, a Famel mostra a E-XF.
  • 2023 a 2024: a Ducati equipa a MotoE; Honda e Kawasaki lançam as suas primeiras elétricas europeias; em outubro de 2024 a Energica entra em liquidação.
  • 2025: recorde mundial; a Famel estreia na EICMA; o MotoE faz uma pausa; a Honda prepara a WN7.
  • 2026: a Zero faz vinte anos e a Índia bate recordes mensais.

As marcas e a sua evolução Yadea e a China. A Yadea é, de longe, a maior do mundo em unidades, com cerca de 3,9 milhões de vendas em 2024 e mais de metade do mercado chinês. A NIU vendeu cerca de 1,2 milhões em 2025 e tem crescido na Europa: mais de 2.500 unidades na Alemanha em 2025, contra 275 em 2024. São marcas de produção em massa, preços baixos e forte presença urbana. É por isso que a imprensa do setor fala de uma Europa cada vez mais dependente de importações chinesas.

TVS e.FX.30 da Índia

Índia: TVS, Bajaj, Ather e a queda da Ola. A Ola foi líder durante três anos, mas as vendas desabaram em 2025, de 407 mil para 199 mil unidades (-51%), e a TVS assumiu o topo, com quase 299 mil. Em setembro de 2026, o mercado indiano bateu o recorde mensal, com mais de 207 mil unidades, e as elétricas já pesam mais de 11% das duas rodas vendidas.

Zero: A pioneira americana de 2006, fundada pelo engenheiro Neal Saiki, construiu a reputação com os modelos S, SR e DS e, em 2020, a SR/F e a SR/S, mais potentes. Continua a lançar novidades, como a XE de acesso, em 2025. Ainda assim, o distribuidor australiano foi liquidado em 2025, o que mostra como é difícil o nicho premium. Em 2026 celebra duas décadas com uma edição limitada da SR/F.

Livewire da Harley-Davidson

LiveWire: Saída da Harley-Davidson, passou de uma moto cara a uma gama mais acessível, com a S2 Del Mar (2022) e agora a S4 Honcho. Os volumes são pequenos: 660 unidades em 2023 e 612 em 2024. No segundo trimestre de 2026, as vendas da Livewire subiram 386%, com a nova plataforma já em produção.

Outra variante da Livewire da Harley-Davidson

Energica: A italiana (abaixo) foi uma das mais respeitadas no segmento de topo, com Ego (abaixo), Eva, EsseEsse9, Ribelle e Experia, e fornecedora do MotoE. Passou para controlo americano em 2022 e entrou em liquidação a 14 de outubro de 2024, apesar de recordes de vendas. Houve depois notícias de um possível resgate por investidores asiáticos, cujo estado atual ainda não foi confirmado.

Silence: A espanhola lidera as scooters elétricas em Espanha há oito anos, com 42,6% de quota no primeiro semestre de 2026, e vende também em Itália, França e Portugal.

Stark Future: Foi a grande surpresa do todo-o-terreno. A Varg, uma motocross elétrica de potência superior às de combustão, chegou em 2021 e tornou a marca rentável, com mais de 100 milhões de euros angariados. Através da App, é configurável para uma variedade de classes. Em 2024 chegou a versão de enduro homologada para estrada, a Varg EX, e a marca prepara agora modelos de estrada.

Honda, BMW, Kawasaki, Ducati: Os gigantes entraram devagar. A Kawasaki lançou a Z e-1 e a Ninja e-1 em 2024, que vende por menos de 10.000 Euros ao lado das convencionais a motor térmico. A Honda lançou o ciclomotor EM1 em 2024 e a scooter CUV em 2025, mostrou o conceito EV Fun, que deu origem à estradista WN7 (mais abaixo), e anunciou o objetivo de vender 4 milhões de elétricas em 2030.

A BMW já tinha a CE elétrica (acima) desde 2018 e a Ducati usou o MotoE para desenvolver a V21L, agora com baterias de estado sólido.

Da Vinci
A ser promovida online e destinada a ser revelada só na próxima EICMA, um vídeo da marca que já divulgaramos em agosto reclama um zero aos 100 de 3 segundos do motor de 95 kW (129 cv) e 850 Nm, 4 modos de condução incluindo relax, road, sports, e race, além de tempos de recarga referenciais. Ativação por cartão, ligação a uma App no telemóvel para controlo remoto e instrumentos em écrã TFT combinam com um massiço monobraço oscilante, garfo invertido, travões radiais da Brembo com travagem combinada e a promessa de uma autonomia de pelo menos 400 Km.

Portugal: crescimento rápido a partir de uma base mínima Segundo a ACAP, as motos elétricas matriculadas em Portugal foram 460 em 2025, mais 10% do que em 2024, cerca de 1% de um mercado de 43.995 motociclos novos. Em 2026 o salto é grande: 289 unidades no primeiro trimestre (+165%), 438 no primeiro semestre (+98%) e 597 até agosto (+89,5%), já mais do que todo o ano passado. Mesmo assim, as elétricas pesam só 1,6% das 36.690 motos novas matriculadas, num mercado geral em forte alta de 17,9%.
O Fundo Ambiental apoia a compra de motos elétricas novas com 50% do valor, até 1.500 euros, e as candidaturas mais recentes abriram no final de 2025 e de novo em 2026. Em edições anteriores, a verba para motos esgotou em poucas horas.

A marca elétrica portuguesa por excelência é a Famel. Depois de fechar nos anos 90, voltou em 2021 com a E-XF, inspirada na mítica XF-17. Apresentou a versão final (acima) na EICMA, em novembro de 2025, com motor de 5,5 kW, até 120 km de autonomia e cerca de 7.000 euros, com as primeiras 100 unidades previstas para o início de 2026 dependente de financiamento.

A Honda WN7 é a primeira elétrica do maior fabricante mundial

O que podemos esperar O motor do crescimento mundial continua a ser o utilitário urbano, barato e asiático. As motos elétricas de lazer ainda enfrentam os desafios de preço, autonomia e rede de carregamento, tanto que algumas, como a Energica falada acima e a Damon canadiana, já faliram. Mas os sinais de 2026 são claros: recorde mundial de vendas, recuperação europeia e Portugal a crescer perto dos 90%.

Tags: DucatiHarley-DavidsonKawasakiMotos ElétricasStarkYamahaZero
Paulo Araújo

Paulo Araújo

Com uma experiência de várias décadas no âmbito do motociclismo, viajou pelo mundo cobrindo eventos nas duas rodas. Já foi piloto de velocidade, team manager, instrutor, jornalista e comentador de rádio e televisão, especializando nas modalidades de velocidade, em particular MotoGP, SBK e Endurance.

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